Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

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quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher!

Embora as datas em nossa sociedade, em sua maioria, tenham adquirido um fim consumista, o 08 de março precisa ser um momento cada vez mais de discussão e a continuação da luta pela igualdade entre os gêneros nos diferentes espaços sociais. 
Não podemos mais aceitar e conviver, ou mesmo reproduzir, as violências, explorações e humilhações que as mulheres sofreram e ainda sofrem em nossa sociedade ainda machista e preconceituosa. 
Que todos os dias possam ser o dia da mulher, que deve ser tratada com respeito e dignidade, independente de sua condição financeira, sexual, religiosa, política..... Mulheres, continuem a luta pelos seus direitos e sua dignidade frente à sociedade!








quarta-feira, 7 de março de 2012

Escravas e escravidão

Sinhás pretas
Por Sheila de Castro Faria
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Ana foi escrava de outra mulher, preta forra, ambas da Costa da Mina. Talvez como sua ex-senhora, talvez ensinada por ela, conseguiu se alforriar pagando pela liberdade com recursos de sua “própria indústria e trabalho”, conforme declarou em seu testamento, de 1798. Chamava-se Ana Teixeira Guimarães e tinha mais de 60 anos quando morreu, em Mariana, Minas Gerais.

A documentação relativa ao período escravista do Brasil permite pouca observação sobre a vida material e as escolhas dos escravos em seu cotidiano. Uma das formas de se vislumbrar alguns aspectos é por meio de inventáriose testamentos. Geralmente feitos por pessoas com recursos, os documentos eram ditados pelos doentes desenganados. Poucos meses depois do falecimento, realizavam-se os inventários, quase uma fotografia dos bens materiais dos proprietários no momento da morte. Tudo era descrito, até mesmo objetos sem valor.
O conjunto de dezenas desses inventários permite entrever padrões de certos grupos sociais, como o das pretas forras, mulheres que conseguiram libertar-se da escravidão e acumular bens.
Ana teve inventário porque possuía bens, e bens significativos. Era dona das casas de sobrado onde morava, em frente à Capela da Ordem Terceira de São Francisco, avaliadas em 310 mil réis, valor pelo qual poderia comprar pelo menos três jovens escravos recém-chegados da África. Tinha cinco escravos: quatro mulheres e um homem da nação Angola. Uma delas era Juliana, da Costa da Mina como ela, para quem deixou, divididos em quatro partes, 76.800 réis pelo tempo de seis anos a contar do dia de seu falecimento. Em seis anos, vivendo de seu próprio trabalho, Juliana tinha de completar o valor estipulado.
Ana deixou como herdeira de seus bens a “cria” de sua escrava Juliana, sua afilhada Francisca, de dois anos, liberta no batismo. Deixou de “esmola” a Juliana uma morada de casas cobertas de telhas.
Ser proprietária de casas e escravos era uma situação já bastante confortável para essas mulheres. Mas Ana possuía outros bens: braceletes, brincos, anéis, laços e botões de ouro adornados com pedras preciosas, como diamantes e topázios, e colheres e garfos de prata, num valor suficiente para a compra de dois escravos jovens: 197.200 réis.
Ser proprietária de casas e escravos era bastante confortável, mas Ana possuía também braceletes e botões de ouro adornados com diamantes e topázios
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Também era dona de outros bens requintados e restritos a poucos afortunados, de mercadorias importadas, provavelmente destinadas ao comércio, não sendo necessariamente para seu próprio uso. Uma delas era uma imagem em marfim de Santa Rita, objeto raro até mesmo entre os mais ricos da região. De seu inventário constam ainda fronhas e lençóis de linho, colchas e toalhas de algodão, saias de veludo carmesim e preto e de seda branca, muitas camisas de linho e de algodão, vestimentas de cambraia, de lemiste (tecido fino de lã inglês), chapéus elegantes, uma variedade incrível de lenços de diversos tecidos, pintados com flores ou aves na Ásia ou na Europa. Saias de veludo carmesim e preto não eram pouca coisa: o valor das duas saias somava 30 mil réis, um terço do preço de um escravo jovem.

Até os objetos feitos com materiais do Brasil eram dos melhores: sete catres – um tipo simples de cama –, dois espelhos, mesas grandes e pequenas de jacarandá, muitas com pés torneados, gavetas e fechaduras.
Mesmo sabendo que certas palavras da época não tinham o mesmo significado de hoje, algumas eram de difícil entendimento. Ana tinha três “pratos de pó de pedra”.  Segundo Luís Frederico Antunes, a louça europeia imitando padrões decorativos orientais era denominada de “louça de pó de pedra”. Mais interessante ainda era “prato de guardanapo da Índia”. Ana tinha oito deles. Esses pratos constam de vários inventários de mulheres forras de Mariana e figuram nas cargas de naus da Carreira da Índia.  Eram pratos finos, talvez de porcelana, usados nas refeições. Por serem trazidos em navios da Carreira das Índias, eram considerados como da Índia, embora feitos na China.
Mercadorias importadas da Ásia ou da Europa eram bens consumidos pelas elites. Mas, em meio a este grupo social, devem ser considerados outros estratos da população, como o formado por essas pretas forras, nascidas na África e transferidas para o Brasil em idade suficiente para terem adquirido a cultura de seus povos de origem. Podiam não ter prestígio social na sociedade escravista, mas tinham riqueza. Também compunham uma elite.
Suas escravas eram quase sempre mulheres nascidas na África. Em suas casas, era comum que só houvesse mulheres: as “sinhás pretas” viviam com suas escravas. A maioria não tinha filhos. Deixavam seus bens em herança para ex-escravas ou para as “crias”, ou crianças nascidas em suas casas, filhas de suas escravas.
Foram as mulheres, com suas redes de comércio, que dinamizaram a economia de regiões da África, e continuaram a fazer o mesmo nas Américas
Essas escolhas eram delas ou imposições da sociedade? Não tinham filhos porque foi impossível ou porque não quiseram? Eram proprietárias de mulheres em vez de homens porque eram mais baratas? Por que investiam seus recursos em joias, roupas caras e louças importadas? Cada vez tenho mais certeza de que eram escolhas próprias e pautadas por suas culturas de origem.
Em várias formações africanas havia uma rígida divisão sexual do trabalho. As mulheres eram responsáveis pelo preparo das comidas e pelo comércio de produtos agrícolas, de alimentos e das mais variadas mercadorias. Mulheres comerciantes predominavam nos mercados e feiras das aldeias e cidades em muitas regiões que tiveram contato com os europeus. A pimenta era um dos produtos mais procurados por eles na costa da África desde os primeiros tempos da expansão marítima, e eram as mulheres que monopolizavam seu comércio. Conclusão: ficaram ricas. Com o tempo, incorporaram novos produtos, provenientes de outras praças mercantis.
Interceptavam comerciantes, a fim de comprar barato e revender com lucro suas mercadorias; participavam do comércio de longa distância, inclusive por meio de procuradores, e intermediavam os produtos do tráfico de escravos português, como a cachaça, o tabaco e os panos das Índias. Um exemplo foi Madame Tinubu, que atuou em Badagry e Lagos, no golfo de Benim, na segunda metade do século XIX, onde negociava sal e tabaco, e era intermediária dos comerciantes de escravos do Brasil. Juntou grande fortuna, era dona de muitos escravos e ficou conhecida por seus opositores como “o terror de Lagos”.
Nem sempre tão poderosas como Tinubu, mas com redes comerciais importantes, foram as mulheres que dinamizaram a economia de muitas regiões da África e continuaram a fazer a mesma coisa nas Américas.
Explica-se a escolha de escravas, e não de escravos, por parte das pretas forras no Brasil: as cativas atuariam no comércio ao lado ou a mando delas. Não tinham filhos porque não queriam procriar na diáspora. Ana, como muitas outras, deixou herança para uma afilhada, Francisca, e uma casa para a mãe da menina, certamente para que cuidasse dela e lhe transmitisse ensinamentos. Juliana provavelmente se transformaria em uma nova Ana ao usufruir os recursos. Ana tinha entre seus bens trempes e fogareiros, tachos e apetrechos de cozinha, utilizados na preparação e na venda de alimentos. A quantidade de catres sugere que sua casa pode ter sido uma hospedaria, incluindo o fornecimento de comida.
A entrada de novas mercadorias nesse comércio não assustava as comerciantes: incorporavam as novidades às suas transações. Os objetos nos quais decidiram investir seus recursos eram luxuosos no Brasil: joias, tecidos e louças importados do Oriente. Eram parte de um comércio de longuíssima distância. Uma delas entregou tecidos a um comerciante para que lhe trouxesse uma escrava da África.
São impressionantes a capacidade de adaptação e o desempenho de mulheres como Ana Teixeira de Guimarães. Chegaram ao Brasil à força, nas condições mais adversas e no pior lugar social possível. Essas “Anas” conseguiram resultados que fariam inveja à maioria dos homens que nunca foram escravos, que se mudaram para a América por iniciativa própria, em busca de enriquecimento, e tiveram as expectativas frustradas.
   
Sheila de Castro Faria é professora da Universidade Federal Fluminense e autora do artigo “Francisca Maria Teresa e as Sinhás Pretas no Brasil colonial”. In VAINFAS, Ronaldo; SANTOS, Georgina Silva dos; NEVES, Guilherme Pereira das (orgs.).Retratos do Império. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Niterói: Ed. UFF, 2006.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Futuro: você tem alguma sugestão?

Saber o futuro é ainda algo que podemos ter algumas perspectivas, mas não uma previsão de como será. Várias projeções, ideias, hipóteses, mas sempre uma incerteza. O que podemos é pensar como será esse futuro, como sociedades que viveram em épocas anteriores já fizeram. Futuro: você tem alguma sugestão?


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Apesar de tantos médiuns e videntes disponíveis no mercado o futuro ainda permanece uma incógnita imprevisível. Estatísticos fazem seus múltiplos cálculos para estimar os dados do amanhã, enquanto visionários e vanguardistas especulam as principais novidades do “desconhecido”, muitas vezes representada na cultura (com plena liberdade poética) através do gênero conhecido como “ficção científica”. Daí nossa eterna expectativa por carros voadores, serviço público de teletransporte, inteligência artificial e máquinas do tempo, dentre outras tecnologias que nestes tempos atuais ainda nos parecem feitiçarias.
Como diz o ditado, “sonhar não custa nada”, e muitas vezes pode nos dar boas pistas de como realmente pode vir a ser o futuro da humanidade. E o sonho pode soar como uma promessa quando empresas de tecnologia como a Nokia lançam vídeos como estes, com projeções de inovações futuras:
O que dizer das promessas relacionadas à nanotecnologia?
Outra empresa que andou fazendo previsões tecnológicas foi a Samsung:
 Uma das mais recentes projeções para o futuro foi apresentada pela Microsoft:
E ainda tivemos esta, ainda mais impressionante, indicando as futuras possibilidades de implementações tecnológicas em vidro:
 Se você está achando que previsões assim são vazias demais para acreditarmos que podem vir a serem realizadas, veja o que se imaginava para o futuro da tecnologia em idos de 1954:
Espero que inventem logo uma máquina do tempo pra gente poder pelo menos dar uma espiadinha mais precisa no futuro, sempre que a curiosidade bater!

Fonte:http://www.redbull.com.br/cs/Satellite/pt_BR/Article/Como-ser%C3%A1-o-amanh%C3%A3--Responda-quem-puder-021243169481093

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Gramática Pedagógica do Português Brasileiro"

Uma indicação de leitura é o trabalho do linguista Marcos Bagno que publica a "Gramática Pedagógica do Português Brasileiro", buscando trazer as contribuições da ciência a língua portuguesa, batendo de frente com alguns chavões e concepções enraizadas, em especial, nas escolas, a algumas décadas. O que é falar corretamente o português? Eis umas das questões levantadas pelo pesquisador. Mensalmente Bagno publica uma coluna na Revista Caros Amigos (http://carosamigos.terra.com.br/index2/) abordando esta temática. 
O rico não erra, comete lapsos. O pobre não, erra feio. 
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Em "Gramática Pedagógica do Português Brasileiro", o pesquisador em linguística Marcos Bagno compila o que os leitores de Caros Amigos conhecem de seu trabalho através da coluna que mantém na revista. Bagno defende a libertação da língua praticada no Brasil das regras seculares do português de Portugal e uma gramática que contemple os modos do falar brasileiro.

O livro, publicado pela editora Parábola, já está nas livrarias. Na entrevista abaixo, elaborada pela educadora Solange Americano, formada em letras pela USP e que atua no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), Bagno descreve um pouco o que está na obra.

Caros Amigos - O livro derruba  o  mito de que falamos todos a mesma língua no Brasil esclarecendo que monolinguismo e homogeneidade linguística são bem diferentes. O que  caracteriza o português brasileiro contemporâneo?

Marcos Bagno: O português brasileiro contemporâneo é como qualquer outra língua viva contemporânea: uma língua em constante mutação, instável, sempre em processo de se fazer e refazer. Toda e qualquer língua viva é sempre uma língua que “está”, nunca uma língua que “é”, porque nós falantes não paramos de modificar nossas línguas o tempo todo. Num país gigantesco como o nosso, com situações sociais tão diversificadas, climas, etnias, economias diferentes etc., a língua também é diversificada, heterogênea, variável e mutante.
CA - O que deve vir primeiro: o estudo da língua ou o domínio da escrita e leitura?
MB - Sem dúvida nenhuma, o domínio da leitura e da escrita, ou seja, o letramento. Saber ler e escrever com competência e criatividade é o conhecimento mais importante para a plena conquista da cidadania numa sociedade republicana e democrática. O estudo da língua, o estudo específico e técnico da língua, deve ser deixado para depois que a pessoa tiver um bom grau de letramento. Além disso, no processo de aprendizagem da leitura e da escrita é inevitável que a pessoa estude também o funcionamento da língua, reflita sobre ele, intua as regras. Mas isso pode ser feito sem análise sintática e sem decoreba de nomenclatura.

CA - O que seria uma política linguística para o Brasil?
MB - Seria uma política com dois focos, um para o interior e outro para o exterior. Para o interior do Brasil, ela deveria contemplar o ensino do português brasileiro urbano de prestígio, contemporâneo, tal como ele já vem sendo descrito pela pesquisa linguística brasileira nos últimos quarenta anos. É perfeitamente possível, hoje, elaborar material didático de boa qualidade usando o que já sabemos, e sabemos muito, da gramática real do português brasileiro. Temos de produzir, portanto, dicionários e gramáticas afinados com essa realidade do português brasileiro, reconhecendo o português brasileiro como uma língua independente do português europeu, com sua própria história e sua própria gramática e seu próprio léxico.

Ainda no plano interno, é preciso reconhecer o Brasil com uma das nações com maior multiplicidade linguística de todo o mundo: temos quase 200 línguas diferentes faladas em nosso território, mas durante toda a história fomos iludidos com o mito do monolinguismo, que justificava inclusive o extermínio dos povos falantes de línguas indígenas. Reconhecer as línguas como patrimônio cultural, simbólico e identitário de milhões de pessoas significa permitir que elas falem suas línguas, aprendam a ler e a escrever nelas, possam divulgar essas línguas por meio impresso, audiovisual, informatizado etc. É uma questão de direito, o direito linguístico.
No plano externo, o Brasil precisaria assumir o que ele de fato é, a nação mais importante de língua portuguesa, e empreender uma divulgação agressiva da nossa língua, por meio de leitorados no exterior, produção de material didático para o ensino do português brasileiro a estrangeiros etc. Nossa política linguística ainda é muito subserviente às decisões dos portugueses, que são minoritários em quantidade de falantes.
CA - Essa nova abordagem da língua, o português brasileiro, auxiliaria na crise da educação no Brasil?
MB - Não seria a única solução, mas certamente colaboraria muito para melhorar a qualidade do que se ensina e se aprende. Se nas escolas pararmos de ensinar regras que não fazem parte da gramática do português brasileiro, se pararmos de tentar convencer os alunos de coisas que não fazem nenhum sentido (como a concordância maluca de “vendem-se ovos”), se deixarmos de querer ensinar um estado de língua de 350 anos atrás (“vós poderíeis”), se nos preocuparmos mais com a leitura e com a escrita e menos com a obsessão classificatória... assim talvez possamos começar a destruir a antipatia secular que a escola implantou nas pessoas com relação ao estudo da língua.
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CA - Como a linguagem popular pode influenciar a versão culta do português falado no Brasil? Quais as influências no léxico, na construção sintática e modos de dizer?
MB - Já podemos começar questionando: o que é “linguagem popular”? O que é uma “versão culta” da língua? As antigas divisões muito rígidas entre “língua popular” e “língua culta” já perderam todo o sentido na sociedade brasileira contemporânea. A mobilidade social intensa, que cresceu ainda mais na última década graças aos programas de inclusão social que fizeram surgir a chamada “nova classe média”, tornou essas fronteiras muito mais instáveis, líquidas ou simplesmente acabou com elas. Hoje são mínimas as diferenças linguísticas entre a fala de um cidadão de classe alta e a de um cidadão de classe baixa. Além disso, as pesquisas mostram que os chamados “erros” cometidos na “linguagem popular” também ocorrem na “língua culta”, só que na boca dos privilegiados eles aparecem como “lapsos” ou “licenças”. O rico não erra, comete lapsos. O pobre não, erra feio. Essas diferenças de avaliação social são muito mais fundas e sérias do que as diferenças propriamente linguísticas.
CA - No livro você diz que a mudança linguística é inevitável e é impulsionada pelos próprios falantes.  As variantes linguísticas populares tão estigmatizadas, hoje, como “menas coisas”, podem vir a ser futuramente gramaticalizadas e dicionarizadas?
MB - Perfeitamente. Costumo dar como exemplo o caso do particípio passado do verbo “pegar”. No dicionário Caldas Aulete, da década de 1950, a forma “pego” era atribuída a “pessoas ignorantes”. Hoje os dicionários registram a forma “pego” sem nenhum comentário, porque o uso acabou impondo a forma nova. E é assim que acontece desde sempre. Se hoje falamos português brasileiro e não latim, é porque, ao longo dos séculos, os falantes foram transformando a língua em todos os seus aspectos até ela ficar tão diferente do que era antes a ponto de receber outro nome. O português brasileiro é a continuação histórica do latim, algo como um “latim falado errado”, para usar a terminologia do senso comum...
CA - “Os linguistas têm se limitado a descrever as relações entre língua e sociedade: trata-se agora de transformá-las.” Como seria essa transformação?
MB - Os linguistas têm acumulado muito conhecimento sobre as línguas, mas muitas vezes não se dão conta de que esse conhecimento tem o poder de destruir velhos mitos culturais, desmentir preconceitos sociais e colaborar para uma efetiva democratização das relações sociolinguísticas. Podemos transformar essas relações levando a um público cada vez mais amplo as nossas descobertas, mostrando como é a língua de fato e não a língua idealizada das gramáticas normativas e do ensino tradicional. É o que tento fazer com a minha Gramática.
CA - Qual a verdadeira dimensão da gramática e a sua importância para o conhecimento da língua?
MB - O termo “gramática” encobre muitos sentidos diferentes. Para o linguista, “gramática” é o nome que se aplica a todas as regras que fazem uma língua funcionar. Assim, faz parte da gramática do português brasileiro a regra que nos leva a dizer coisas como “ainda não chegou os livros que eu pedi” ou “os menino tá tudo lá fora brincando”, junto com “ainda não chegaram os livros” ou “os meninos estão todos lá fora brincando”, porque todas essas construções seguem regras, não são frutos do acaso ou da “burrice” dos falantes. No entanto, por razões históricas e socioculturais, nem todas as regras de funcionamento da língua recebem a mesma avaliação social: algumas são tidas como “boas” e “bonitas”, enquanto outras são tidas como “ruins” ou “feias”. Essas avaliações são exclusivamente ideológicas, nada têm que ver com fenômenos propriamente linguísticos. Mas são essas regras seletivas e selecionadas que entram na descrição dos livros chamados “gramáticas”, que são tradicionalmente obras normativas, prescritivas, ou seja, que deixam de lado muita coisa que existe na língua para só incorporar o que uma certa tradição considera correto.
CA - Normalmente o professor de língua portuguesa ensina a norma padrão, pois o aluno vai à escola para aprender uma variedade de língua que ele desconhece. As outras variantes são apresentadas como algo exótico e pitoresco. Na realidade o professor  está ensinando a hegemonia do padrão culto da língua e a desqualificação e repressão do padrão popular.
MB - A coisa é mais complexa do que isso, porque hoje em dia nosso professorado provém majoritariamente das camadas sociais C, D e E. Grande parte dos que se formam docentes vêm de famílias com pais e mães pouco letrados ou mesmo analfabetos. Nossos docentes hoje são muito mais portadores das “normas populares” do que os de antigamente. Assim, é pouca a diferença entre o que fala um(a) professor(a) e o que fala um(a) aluno(a). Na escola, hoje, convivem sem problemas as muitas variedades do português. Com isso, a norma-padrão tradicional, que sempre foi muito artificial e anacrônica, perde totalmente o seu sentido na escola de hoje. Por isso, muitos docentes ficam espantados ao descobrir que determinadas construções que eles mesmos usam são consideradas “erradas” pela tradição. Assim, o mais importante, na formação docente, é antes de tudo o letramento desses mesmos docentes, que não têm bom domínio da leitura e da escrita porque vêm de ambientes sociais e culturais onde a leitura e a escrita não têm um peso significativo. Aí está o grande nó: como querer desenvolver o letramento dos alunos se os próprios professores não têm um letramento suficiente? Enquanto esse nó não for desfeito, dificilmente levaremos a educação a melhores patamares.
CA - Norma-padrão (culta ideal) e norma culta real (mais próxima da realidade do falante) podem conviver ou são excludentes?
MB - Não só podem como convivem. A atividade linguística de um povo independe das prescrições, das determinações de meia dúzia de supostos dirigentes dos assuntos linguísticos. A língua é parte integrante do próprio ser de cada indivíduo: nós somos a língua que falamos e ela nos constitui como seres sociais. Todo indivíduo falante é portador de uma ampla intuição linguística e de um repertório linguístico poderoso. A função da escola é ampliar ainda mais esse repertório, levando a pessoa a conhecer outros usos, sobretudo os que não fazem parte de sua vivência sociocultural. Daí a importância da leitura e da leitura de textos literários, da literatura consagrada, porque são atividades ausentes do ambiente familiar da grande maioria dos nossos aprendizes. Conforme já disse, as fronteiras entre as variedades linguísticas são cada vez mais fluidas, há uma forte e intensa mixagem de normas e variantes hoje no Brasil.
CA - O livro é destinado aos professores de língua portuguesa, o próximo passo seria construir a didática da gramática do português brasileiro? Como traduzir essa teoria para os alunos do ensino básico?
MB - Essa teoria não tem que ser traduzida para os alunos do ensino básico. Os alunos do ensino básico têm que aprender a ler, a reler, a re-reler, a escrever, a reescrever, a re-reescrever etc. Nesse processo de letramento eles vão se apoderando, intuitivamente, da gramática (do funcionamento) da língua. O professorado, no entanto, tem de conhecer muito bem, muito profundamente, com profundidade teórica e científica, o seu objeto de trabalho, não para “ensinar gramática”, para saber reconhecer os fenômenos linguísticos que vão surgindo em sua prática pedagógica.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Para quem gosta de filmes de vampiros e lobisomens, mas sem lua nova, eclipse...

O trilogia Underworld passa a quadrilogia com Anjos da Noite 4 - O Despertar. Pelos traillers disponíveis e algumas resenhas, o filme retrata o retorno da vampira Selene (Kate Beckinsale), depois de ser mantida em estado de coma por quinze anos, descobre que tem uma filha híbrida (metade vampiro, metade lycan (lobisomem), mais forte que ambos) de quatorze anos, chamada Nissa. Quando encontra sua filha, precisa defende-la de um grupo assassino de Lycans. 
O enredo principal permanece o mesmo, mas com os seres humanos entrando na caçada. Quem gosta de filme de ação e sangue na tela, com certeza será uma boa pedida para este início do mês de março, previsão da estréia no Brasil. Seguindo a "moda" em 3D.

Trailer 


sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Motoqueiro Fantasma está de volta!

Em um ano que promete várias estréias de filmes baseados nas histórias em quadrinhos (Spider Man 4, Os Vingadores... ) Motoqueiro Fantasma 2: o espírito da vingança, abre a temporada neste mês de fevereiro nos EUA (trailer disponível na sequencia do post). Para os fãs de filmes de ação baseados nas histórias em quadrinhos este Motoqueiro parece ser muito melhor que o primeiro, que ficou a desejar, na minha opinião, nas cenas de luta, centrando-se muito mais no lado pessoal do personagem, embora o filme com certeza é um espetáculo de efeitos visuais e musicais. Na expectativa para a estréia no Brasil, para ver a tela do cinema incendiar!!! E cuidado, ele pode estar atrás de você, buscando a vingança!! hahahah


Dessa vez, Nicolas Cage é o demônio      Por Ian Spelling, The New York Times News Service/Syndicate

Dessa vez, Nicolas Cage é o demônio

Pode acontecer o que for, nunca diga que "Motoqueiro Fantasma 2: O Espírito da Vingança" é a sequência de "Motoqueiro Fantasma" (2007) _ pelo menos não na frente de Nicolas Cage, o astro das duas aventuras baseadas no mesmo personagem dos quadrinhos.
Mark Steven Johnson dirigiu o primeiro, que faturou quase US$230 milhões no mundo todo, enquanto Mark Neveldine e Brian Taylor são os responsáveis pelo segundo, que estreia nos EUA em 17 de fevereiro. Só que, para Nicolas Cage, um é bem diferente do outro.
"Esse é outro filme", ele afirma. "Eu diria que começamos do zero com uma história nova, partindo do fato de que aqui vemos Johnny Blaze (Cage) fazendo um pacto com o Demônio. Não foi enganado nem nada, foi ele quem quis. Tem as mãos sujas de sangue e agora tem que honrar o acordo".
"Acho que o Mark Neveldine nem assistiu à versão do Mark Steven Johnson", acrescenta. "Para ele e o Taylor, foi uma coisa inteiramente nova. Tudo bem que sou o mesmo ator, mas nem a minha interpretação é a mesma, não tenho a mesma aparência nem o jeito de falar. Partimos do zero".
Dessa vez Blaze/Motoqueiro Fantasma tem que proteger um garoto (Fergus Riordan), que é o alvo do Demônio (Ciaran Hinds). Outros personagens incluem Blackout (Johnny Whitworth), o arqui-inimigo do Motoqueiro, e um monge chamado Methodius (Christopher Lambert).
Falando por telefone de um hotel em Paris, Cage continua pensativo, cauteloso e excêntrico como sempre. Um dos desafios que encarou de bom grado em "O Espírito da Vingança", segundo ele, foi a oportunidade de interpretar Blaze e o Motoqueiro Fantasma _ que, da primeira vez, foi uma criação digital.
UNDATED -- BC-HOLLYWOOD-WATCH-NICOLAS-CAGE-ART-NYTSF -- Nicolas Cage (right, seen here with Idris Elba and Violante Placido) plays Johnny Blaze, human avatar of the demonic Ghost Rider, in the new film "Ghost Rider: Spirit of Vengeance." .This picture accompanies an article by Ian Spelling. (Photo by Egon Endrenyi. Copyright 2011 Columbia Pictures.)
Trailer: