Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

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segunda-feira, 30 de julho de 2012


Atenção alunos e alunas das 3ª séries e aos demais que se inscreveram no ENEM 2012: o MEC lançou hoje, dia 30 de julho, um guia para a redação, informando sobre os critérios de avaliação e como melhorar seu desempenho nesta etapa do Exame. Vale a pena conferir e começar a fazer suas anotações e seus exercícios para escrita! 


Ministério da Educação lança manual sobre redação do Enem

Heloisa Cristaldo
Repórter da Agência Brasil

O Ministério da Educação (MEC) lançou hoje (30) o manual A Redação no Enem 2012 – Guia do Participante com informações sobre critérios de avaliação da redação do exame. O guia vai orientar estudantes sobre como se preparar para a prova, que será aplicada nos dias 3 e 4 de novembro.
“O guia vai trazer tudo que o aluno precisa saber sobre o que os avaliadores vão considerar para dar nota [na redação]. O estudante vai saber exatamente em que pode perder pontos e qual a estratégia para ter o melhor desempenho possível”, disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.
Das 3.700 redações que receberam nota máxima (mil pontos) no Enem 2011, seis foram selecionadas e aparecem no guia com comentários. De acordo com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Luiz Cláudio Costa, os autores das redações selecionadas "desenvolveram o tema de acordo com as exigências do texto dissertativo-argumentativo" e demonstraram "domínio da norma culta de língua escrita".
Segundo o ministro da Educação, o número de avaliadores de redação será ampliado em 40% para o Enem 2012. Dois professores avaliarão o desempenho dos alunos, que podem receber de zero a 200 pontos para cada uma das cinco competências (domínio da norma padrão da língua portuguesa; compreensão e desenvolvimento do tema utilizando várias áreas do conhecimento; construção e defesa de um ponto de vista; construção de argumentação e proposta de intervenção para o problema, respeitando os direitos humanos).
Havendo divergências acima de 80 pontos em qualquer uma das competências, a prova será corrigida por um terceiro avaliador. Caso ainda persista a divergência de notas, uma banca composta por três professores dará a nota final do participante. Até o exame anterior, a margem para discordância era 300 pontos.
Mercadante afirmou que os alunos terão acesso às redações corrigidas para fins pedagógicos. “É mais uma contribuição para darmos total transparência ao Enem”, disse. Entretanto, não poderão ser usadas como base para recurso junto à organização da prova.
Elaborado pelo Inep, em conjunto com especialistas em língua portuguesa, o guia tem inicialmente a tiragem de 1,7 milhão de cópias, que serão distribuídas a todas escolas públicas do país na segunda quinzena de setembro. O Ministério também vai disponibilizar edições em braille e na forma ampliada para pessoas com déficit de visão. A versão online já está disponível na página eletrônica do Inep.
O MEC também divulgou que será publicado amanhã (31) edital no valor de R$ 2 milhões para convocar instituições de ensino superior para fazer estudos e pesquisas relacionados às provas aplicadas.
Os 5,8 milhões de candidatos da próxima edição do Enem, número recorde de inscritos, farão o exame em 140 mil salas de 1.600 municípios do país.
Edição: Fábio Massalli

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Mapeamento das questões de história no vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina 
(UFSC) – 2009 a 2011

Autoria: Anderson Sartori
Professor de História do Instituto Federal Catarinense - Câmpus Sombrio

A Universidade Federal de Santa Catarina, segundo dados do último vestibular, oferece 5991 vagas em 85 opções de cursos nas cidades de Florianópolis, Curitibanos, Joinville e Araranguá. O vestibular da UFSC, como de outras universidades federais, possui um grau de dificuldades e exigências muito grandes aos candidatos a alguns de seus cursos superiores.
A prova objetiva é composta por questões somatórias, que exigem conhecimentos e concentração dos estudantes para encontrar a solução das questões. Dessa forma é fundamental uma organização de horários de estudos para os que buscarão realizar este seletivo.
Desta forma, algumas orientações acerca de como este processo se desenvolve e o levantamento das questões de história nos vestibulares de 2009 a 2011. Importante sempre ter atenção que este levantamento é uma amostra de uma tendência da disciplina de história neste vestibular, mas sempre se deve estudar todo o conteúdo sugerido no edital do vestibular.
O vestibular é dividido, de acordo com o edital do ano passado, em 3 dias de prova, divididos na seguinte forma e com a seguinte forma de pontuação das questões:

* 1ª PROVA: duração de 4 horas
- Língua Portuguesa e Literatura Brasileira: 12 questões de proposições múltiplas.
- Segunda Língua: Alemão ou Espanhol ou Francês ou Inglês ou Italiano ou Libras: 08 questões de proposições múltiplas.
- Biologia: 10 questões de proposições múltiplas e/ou abertas.
- Matemática: 10 questões de proposições múltiplas e/ou abertas.

* 2ª PROVA: duração de 4 horas
- Geografia: 10 questões de proposições múltiplas.
- História: 10 questões de proposições múltipla.
- Física: 10 questões de proposições múltiplas e/ou abertas.
- Química: 10 questões de proposições múltiplas e/ou abertas.

* 3ª PROVA: duração de 4 horas
- 4 Questões discursivas
- Redação

* Pontuação das questões de proposições múltiplas

- As questões de proposições múltiplas conterão no máximo 7 proposições identificadas
pelos nos. 01, 02, 04, 08, 16, 32 e 64, das quais pelo menos uma deverá ser verdadeira.
- A resposta será a soma dos números correspondentes às proposições verdadeiras e será um número inteiro, compreendido entre 01 e 99, (incluindo estes valores).

* Valorização dos acertos nas questões de proposições múltiplas
- A inclusão de alternativas falsas não zera a questão; a quantidade de alternativas
falsas assinaladas nas questões de proposições múltiplas é deduzida da quantidade de
alternativas verdadeiras indicadas. Se a diferença for positiva, o candidato obterá pontuação parcial.

As questões de História no Vestibular da UFSC (2009-2011)

Neste processo seletivo, a disciplina História apresenta 10 questões em cada edição. Assim tivemos 30 questões no período de 2009 a 2011. Na tabela a seguir é possível visualizar a frequência que os conteúdos foram cobrados em cada vestibular. Importante salientar que em muitas das questões, além do período histórico são inseridas comparações do passado e presente e/ou as consequências desse processo histórico, necessitando além do saber especifico da disciplina, a compreensão e o conhecimento de diferentes contextos para atingir o objetivo proposto na questão.
Novamente reforçamos que é uma análise sobre edições passadas, sendo sempre necessário se ater ao edital do vestibular para a visualização dos conteúdos propostos.
Importante frisar que nestas 3 edições, foram elencadas uma questão por ano sobre a História de Santa Catarina, sendo assim fundamental o candidato estudar este período histórico. Como este ano completasse 100 anos do início da Guerra do Contestado, é bem possível que tenhamos alguma questão que aborde este conteúdo. A escravidão africana ou suas consequências as populações afro descendentes também aparecem com ênfase nas duas últimas edições, então é importante estar atento.

Período histórico
Frequência
Brasil República
08
História Contemporânea
05
História Moderna
03
História Antiga
03
História de Santa Catarina
03
América Colonial
03
História Medieval
02
Brasil Colônia
02
Brasil Império
02
América – século XIX
01

Na sequência a descrição das questões e os respectivos conteúdos em cada edição do vestibular.

* Questões do Vestibular 2009

- História Antiga: Jogos Olímpicos na Grécia Antiga (q.11)
- Brasil República: regime militar no Brasil (q. 12)
- História Medieval: roubo e usura (q.13)
- História Moderna: Renascimento (q.14)
- Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria (q.15)
- América Colonial: atuação jesuítas (q.16)
- América Colonial: família real portuguesa (q.17)
- Brasil República: imigração japonesa (q.18)
- História de Santa Catarina: aspectos gerais sobre populações indígenas, imigração e desenvolvimento regional (q.19)
- História contemporânea: questão ambiental e sustentabilidade (q.20)

* Questões do Vestibular 2010

- História Antiga: sociedade e democracia ateniense (q. 01)
- História Medieval: cultura medieval europeia (q. 02)
- Brasil República: década de 1920 (política, economia e cultura) (q.03)
- História de Santa Catarina: ocupação do território (séc. XVIII – XIX) (q.04)
- Brasil Colonial e Império: escravidão africana (q.05)
- História Moderna: Revolução Industrial inglesa e seus impactos no mundo (q.06)
- História da América Colonial: resistência indígena (q.07)
- História Contemporânea: queda do Muro de Berlim (q. 08)
- Brasil República: Monteiro Lobato e o petróleo (q. 09)
- Brasil República: Lei da Anistia (1979) (q. 10)

* Questões do Vestibular 2011

- História Antiga: a cidade estado de Atenas (q. 01)
- História Moderna: Tratado de Santo Ildefonso (q. 02)
- História do Brasil e o uso de energia (q. 03)
- História da América: Guerra do Paraguai (q. 04)
- História Contemporânea: Apartheid na África do Sul (q. 05)
- Brasil Colonial: produção e comércio do açúcar (q. 06)
- História de Santa Catarina: séc. XIX e XX (q. 07)
- Brasil República: processos de migração (q. 08)
- Brasil Império e República: escravidão (q. 09)
- História Contemporânea: período entreguerras (1919 – 1939) (q. 10)

Neste link é possível visualizar os conteúdos e bibliografias propostas em cada disciplina, de acordo com o edital do vestibular de 2012: http://www.vestibular2012.ufsc.br/edital/programa_disciplinas_vest2012.pdf

Outras informações fique atento ao site: http://coperve.ufsc.br/ 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Gramática Pedagógica do Português Brasileiro"

Uma indicação de leitura é o trabalho do linguista Marcos Bagno que publica a "Gramática Pedagógica do Português Brasileiro", buscando trazer as contribuições da ciência a língua portuguesa, batendo de frente com alguns chavões e concepções enraizadas, em especial, nas escolas, a algumas décadas. O que é falar corretamente o português? Eis umas das questões levantadas pelo pesquisador. Mensalmente Bagno publica uma coluna na Revista Caros Amigos (http://carosamigos.terra.com.br/index2/) abordando esta temática. 
O rico não erra, comete lapsos. O pobre não, erra feio. 
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Em "Gramática Pedagógica do Português Brasileiro", o pesquisador em linguística Marcos Bagno compila o que os leitores de Caros Amigos conhecem de seu trabalho através da coluna que mantém na revista. Bagno defende a libertação da língua praticada no Brasil das regras seculares do português de Portugal e uma gramática que contemple os modos do falar brasileiro.

O livro, publicado pela editora Parábola, já está nas livrarias. Na entrevista abaixo, elaborada pela educadora Solange Americano, formada em letras pela USP e que atua no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), Bagno descreve um pouco o que está na obra.

Caros Amigos - O livro derruba  o  mito de que falamos todos a mesma língua no Brasil esclarecendo que monolinguismo e homogeneidade linguística são bem diferentes. O que  caracteriza o português brasileiro contemporâneo?

Marcos Bagno: O português brasileiro contemporâneo é como qualquer outra língua viva contemporânea: uma língua em constante mutação, instável, sempre em processo de se fazer e refazer. Toda e qualquer língua viva é sempre uma língua que “está”, nunca uma língua que “é”, porque nós falantes não paramos de modificar nossas línguas o tempo todo. Num país gigantesco como o nosso, com situações sociais tão diversificadas, climas, etnias, economias diferentes etc., a língua também é diversificada, heterogênea, variável e mutante.
CA - O que deve vir primeiro: o estudo da língua ou o domínio da escrita e leitura?
MB - Sem dúvida nenhuma, o domínio da leitura e da escrita, ou seja, o letramento. Saber ler e escrever com competência e criatividade é o conhecimento mais importante para a plena conquista da cidadania numa sociedade republicana e democrática. O estudo da língua, o estudo específico e técnico da língua, deve ser deixado para depois que a pessoa tiver um bom grau de letramento. Além disso, no processo de aprendizagem da leitura e da escrita é inevitável que a pessoa estude também o funcionamento da língua, reflita sobre ele, intua as regras. Mas isso pode ser feito sem análise sintática e sem decoreba de nomenclatura.

CA - O que seria uma política linguística para o Brasil?
MB - Seria uma política com dois focos, um para o interior e outro para o exterior. Para o interior do Brasil, ela deveria contemplar o ensino do português brasileiro urbano de prestígio, contemporâneo, tal como ele já vem sendo descrito pela pesquisa linguística brasileira nos últimos quarenta anos. É perfeitamente possível, hoje, elaborar material didático de boa qualidade usando o que já sabemos, e sabemos muito, da gramática real do português brasileiro. Temos de produzir, portanto, dicionários e gramáticas afinados com essa realidade do português brasileiro, reconhecendo o português brasileiro como uma língua independente do português europeu, com sua própria história e sua própria gramática e seu próprio léxico.

Ainda no plano interno, é preciso reconhecer o Brasil com uma das nações com maior multiplicidade linguística de todo o mundo: temos quase 200 línguas diferentes faladas em nosso território, mas durante toda a história fomos iludidos com o mito do monolinguismo, que justificava inclusive o extermínio dos povos falantes de línguas indígenas. Reconhecer as línguas como patrimônio cultural, simbólico e identitário de milhões de pessoas significa permitir que elas falem suas línguas, aprendam a ler e a escrever nelas, possam divulgar essas línguas por meio impresso, audiovisual, informatizado etc. É uma questão de direito, o direito linguístico.
No plano externo, o Brasil precisaria assumir o que ele de fato é, a nação mais importante de língua portuguesa, e empreender uma divulgação agressiva da nossa língua, por meio de leitorados no exterior, produção de material didático para o ensino do português brasileiro a estrangeiros etc. Nossa política linguística ainda é muito subserviente às decisões dos portugueses, que são minoritários em quantidade de falantes.
CA - Essa nova abordagem da língua, o português brasileiro, auxiliaria na crise da educação no Brasil?
MB - Não seria a única solução, mas certamente colaboraria muito para melhorar a qualidade do que se ensina e se aprende. Se nas escolas pararmos de ensinar regras que não fazem parte da gramática do português brasileiro, se pararmos de tentar convencer os alunos de coisas que não fazem nenhum sentido (como a concordância maluca de “vendem-se ovos”), se deixarmos de querer ensinar um estado de língua de 350 anos atrás (“vós poderíeis”), se nos preocuparmos mais com a leitura e com a escrita e menos com a obsessão classificatória... assim talvez possamos começar a destruir a antipatia secular que a escola implantou nas pessoas com relação ao estudo da língua.
Marcosbagno
CA - Como a linguagem popular pode influenciar a versão culta do português falado no Brasil? Quais as influências no léxico, na construção sintática e modos de dizer?
MB - Já podemos começar questionando: o que é “linguagem popular”? O que é uma “versão culta” da língua? As antigas divisões muito rígidas entre “língua popular” e “língua culta” já perderam todo o sentido na sociedade brasileira contemporânea. A mobilidade social intensa, que cresceu ainda mais na última década graças aos programas de inclusão social que fizeram surgir a chamada “nova classe média”, tornou essas fronteiras muito mais instáveis, líquidas ou simplesmente acabou com elas. Hoje são mínimas as diferenças linguísticas entre a fala de um cidadão de classe alta e a de um cidadão de classe baixa. Além disso, as pesquisas mostram que os chamados “erros” cometidos na “linguagem popular” também ocorrem na “língua culta”, só que na boca dos privilegiados eles aparecem como “lapsos” ou “licenças”. O rico não erra, comete lapsos. O pobre não, erra feio. Essas diferenças de avaliação social são muito mais fundas e sérias do que as diferenças propriamente linguísticas.
CA - No livro você diz que a mudança linguística é inevitável e é impulsionada pelos próprios falantes.  As variantes linguísticas populares tão estigmatizadas, hoje, como “menas coisas”, podem vir a ser futuramente gramaticalizadas e dicionarizadas?
MB - Perfeitamente. Costumo dar como exemplo o caso do particípio passado do verbo “pegar”. No dicionário Caldas Aulete, da década de 1950, a forma “pego” era atribuída a “pessoas ignorantes”. Hoje os dicionários registram a forma “pego” sem nenhum comentário, porque o uso acabou impondo a forma nova. E é assim que acontece desde sempre. Se hoje falamos português brasileiro e não latim, é porque, ao longo dos séculos, os falantes foram transformando a língua em todos os seus aspectos até ela ficar tão diferente do que era antes a ponto de receber outro nome. O português brasileiro é a continuação histórica do latim, algo como um “latim falado errado”, para usar a terminologia do senso comum...
CA - “Os linguistas têm se limitado a descrever as relações entre língua e sociedade: trata-se agora de transformá-las.” Como seria essa transformação?
MB - Os linguistas têm acumulado muito conhecimento sobre as línguas, mas muitas vezes não se dão conta de que esse conhecimento tem o poder de destruir velhos mitos culturais, desmentir preconceitos sociais e colaborar para uma efetiva democratização das relações sociolinguísticas. Podemos transformar essas relações levando a um público cada vez mais amplo as nossas descobertas, mostrando como é a língua de fato e não a língua idealizada das gramáticas normativas e do ensino tradicional. É o que tento fazer com a minha Gramática.
CA - Qual a verdadeira dimensão da gramática e a sua importância para o conhecimento da língua?
MB - O termo “gramática” encobre muitos sentidos diferentes. Para o linguista, “gramática” é o nome que se aplica a todas as regras que fazem uma língua funcionar. Assim, faz parte da gramática do português brasileiro a regra que nos leva a dizer coisas como “ainda não chegou os livros que eu pedi” ou “os menino tá tudo lá fora brincando”, junto com “ainda não chegaram os livros” ou “os meninos estão todos lá fora brincando”, porque todas essas construções seguem regras, não são frutos do acaso ou da “burrice” dos falantes. No entanto, por razões históricas e socioculturais, nem todas as regras de funcionamento da língua recebem a mesma avaliação social: algumas são tidas como “boas” e “bonitas”, enquanto outras são tidas como “ruins” ou “feias”. Essas avaliações são exclusivamente ideológicas, nada têm que ver com fenômenos propriamente linguísticos. Mas são essas regras seletivas e selecionadas que entram na descrição dos livros chamados “gramáticas”, que são tradicionalmente obras normativas, prescritivas, ou seja, que deixam de lado muita coisa que existe na língua para só incorporar o que uma certa tradição considera correto.
CA - Normalmente o professor de língua portuguesa ensina a norma padrão, pois o aluno vai à escola para aprender uma variedade de língua que ele desconhece. As outras variantes são apresentadas como algo exótico e pitoresco. Na realidade o professor  está ensinando a hegemonia do padrão culto da língua e a desqualificação e repressão do padrão popular.
MB - A coisa é mais complexa do que isso, porque hoje em dia nosso professorado provém majoritariamente das camadas sociais C, D e E. Grande parte dos que se formam docentes vêm de famílias com pais e mães pouco letrados ou mesmo analfabetos. Nossos docentes hoje são muito mais portadores das “normas populares” do que os de antigamente. Assim, é pouca a diferença entre o que fala um(a) professor(a) e o que fala um(a) aluno(a). Na escola, hoje, convivem sem problemas as muitas variedades do português. Com isso, a norma-padrão tradicional, que sempre foi muito artificial e anacrônica, perde totalmente o seu sentido na escola de hoje. Por isso, muitos docentes ficam espantados ao descobrir que determinadas construções que eles mesmos usam são consideradas “erradas” pela tradição. Assim, o mais importante, na formação docente, é antes de tudo o letramento desses mesmos docentes, que não têm bom domínio da leitura e da escrita porque vêm de ambientes sociais e culturais onde a leitura e a escrita não têm um peso significativo. Aí está o grande nó: como querer desenvolver o letramento dos alunos se os próprios professores não têm um letramento suficiente? Enquanto esse nó não for desfeito, dificilmente levaremos a educação a melhores patamares.
CA - Norma-padrão (culta ideal) e norma culta real (mais próxima da realidade do falante) podem conviver ou são excludentes?
MB - Não só podem como convivem. A atividade linguística de um povo independe das prescrições, das determinações de meia dúzia de supostos dirigentes dos assuntos linguísticos. A língua é parte integrante do próprio ser de cada indivíduo: nós somos a língua que falamos e ela nos constitui como seres sociais. Todo indivíduo falante é portador de uma ampla intuição linguística e de um repertório linguístico poderoso. A função da escola é ampliar ainda mais esse repertório, levando a pessoa a conhecer outros usos, sobretudo os que não fazem parte de sua vivência sociocultural. Daí a importância da leitura e da leitura de textos literários, da literatura consagrada, porque são atividades ausentes do ambiente familiar da grande maioria dos nossos aprendizes. Conforme já disse, as fronteiras entre as variedades linguísticas são cada vez mais fluidas, há uma forte e intensa mixagem de normas e variantes hoje no Brasil.
CA - O livro é destinado aos professores de língua portuguesa, o próximo passo seria construir a didática da gramática do português brasileiro? Como traduzir essa teoria para os alunos do ensino básico?
MB - Essa teoria não tem que ser traduzida para os alunos do ensino básico. Os alunos do ensino básico têm que aprender a ler, a reler, a re-reler, a escrever, a reescrever, a re-reescrever etc. Nesse processo de letramento eles vão se apoderando, intuitivamente, da gramática (do funcionamento) da língua. O professorado, no entanto, tem de conhecer muito bem, muito profundamente, com profundidade teórica e científica, o seu objeto de trabalho, não para “ensinar gramática”, para saber reconhecer os fenômenos linguísticos que vão surgindo em sua prática pedagógica.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Alunos e professores amigos no Facebook?

O universo virtual, quase como um dimensão paralela em nossas vidas, possibilita a interação entre diferentes sujeitos e a discussão que passa a ocorrer sobre os limites da virtualidade são interessantes, muitas delas. O caso citado na reportage abaixo é um inidicativo das fronteiras existentes ainda entre o mundo real e virtual e o espaço escolar, que muitas vezes limita seu mundo aos muros que cercam a escola. Sabemos como lidar com estas ferramentas virtuais e seus usos?

Alunos e professores amigos no Facebook?

Os professores são o novo alvo do Facebook, rede social que, com sete anos de vida, reúne pelo menos 750 milhões de usuários em todo o mundo – no Brasil eram 6 milhões em 2010, data do último dado oficial. De olho no universo escolar, a empresa de Mark Zuckerberg criou uma espécie de “manual de uso”. Gratuito para download, o guia Facebook for Educators (disponível ainda apenas em língua inglesa) traz 18 páginas com orientações e possibilidades de uso em sala de aula elaboradas por dois consultores em educação e tecnologia, Linda Fogg Phillips e Derek Baird, além do psicólogo BJ Fogg. A proposta chega no momento em que as questões ligadas à internet estão em efervescência na escola. Afinal, as redes sociais devem ou não ser usadas para fins educativos?

A polêmica é grande. Inclusive, em países com altíssima difusão das redes sociais, como os Estados Unidos. Para se ter uma ideia do imbróglio, o estado norte-americano do Missouri aprovou uma controversa lei que, em tese, restringe a interação entre professores e alunos em redes sociais. Apelidado de “Ato Amy Hestir de Proteção ao Estudante”, a lei proíbe que professores mantenham conversas on-line não públicas com alunos, como acontece no chat do Facebook ou via Direct Message no Twitter, por exemplo.

No Brasil, o terreno também é arenoso, já que ainda não existe uma legislação específica para a internet. No caso das redes sociais, há um contrassenso. Embora seja comum professores “adicionarem” seus alunos – e vice-versa –, na maioria das escolas Facebook, Orkut ou MSN são programas bloqueados. É possível ignorar que essa comunicação exista e separá-la do ambiente escolar? “Vivemos em uma sociedade em que estar conectado é parte da vida de todas as pessoas. A aproximação entre alunos e professores nesse contexto é possível e válida, mas é preciso pensar que tipo de relação estabelecer. Afinal, a mediação da relação entre professores e alunos é profissional”, aponta Lilian Starobinas, doutoranda da Faculdade de Educação da USP e pesquisadora da Escola do Futuro. A especialista acredita que as redes sociais podem ser usadas como ferramentas pedagógicas. Além de ajudar os alunos a fazer uso consciente da rede, o professor poderia encontrar maneiras de agregar valor educacional ao uso da rede social, como, por exemplo, a criação de um perfil de personagem histórico no Facebook para interagir com os alunos.

O GUIA
Dividido em sete capítulos, o manual traz orientações que vão desde a elaboração de uma política específica para uso de redes sociais na escola até explicações que desmistificam o funcionamento da rede. No documento é possível encontrar informações detalhadas sobre o que é “perfil”, “página” e “grupo”, além de orientações sobre configurações de privacidade.

De acordo com Linda Phillips, autora também de Facebook for Parents (Facebook para Pais), “a necessidade de um guia específico que abordasse as preocupações dos educadores e ensinasse como utilizar o Facebook dentro do processo educacional era óbvia”. Lilian Starobinas ressalta que o professor precisa saber claramente a maneira de atuar nas redes sociais: “Conhecer tanto a dinâmica dos relacionamentos quanto da circulação da informação”.

REGRAS NA REDE
Conhecer melhor ferramentas como o Facebook é uma preocupação das escolas que estão buscando se conectar com as novas tecnologias. Renata Americano, coordenadora pedagógica do Fundamental I da Escola Viva, conta que, principalmente no caso dos alunos mais novos, a instituição particular localizada em São Paulo recomenda ir com calma. “A gente não tem como gerenciar tudo isso”, explica.

A necessidade de se interar sobre as redes sociais levou a escola a buscar uma consultoria jurídica no assunto. Além de conversar com os pais dos alunos, a recomendação estabelecida foi que os professores não adicionassem alunos como “amigos” em seus perfis pessoais – para os que já haviam feito isso, o pedido foi que removessem os alunos da rede de amizades virtuais. Segundo a coordenadora, a medida é cautelar. “Não somos contra a tecnologia, mas o Facebook ainda é um espaço que estamos tentando entender”, esclarece.

Também localizada em São Paulo, a escola Stance Dual optou por não restringir a interação de professores e alunos via rede social. A escola trabalha com ferramentas da internet e costuma realizar atividades com os estudantes nesses espaços há cinco anos. Apenas o MSN é bloqueado. No começo do ano, foram comprados 26 laptops para serem usados também dentro da sala de aula. Por conta disso, a escola realizou um treinamento com todos os professores, orientando-os sobre o uso das ferramentas disponíveis na rede. “É uma forma de os professores também participarem dessa formação do aluno”, defende Cláudia Mandaio, assistente de tecnologia de informação da instituição.

Apesar de não ser uma política oficial, a coordenação da Stance Dual apenas recomenda que os professores criem perfis específicos para se comunicarem com os alunos no ambiente virtual, o que evitaria a exposição da vida pessoal do educador. Foi o que fez a professora de Teatro, Barbara Araújo, ao adotar a ferramenta como suporte para a construção do roteiro de uma peça teatral. A princípio, as duas turmas do 9º ano do Ensino Fundamental optaram por escrever o roteiro com a ferramenta de edição de texto oferecida pelo Google – o Google Docs. Entretanto, como não tinham o costume de utilizar o Docs, os estudantes acabavam não interagindo entre si ou com a professora.

A solução partiu de uma aluna, que sugeriu o Facebook. Depois de criar um perfil só para a função, Barbara criou um grupo- para as classes. “Todo mundo pode escrever, participar e editar, vira um texto realmente coletivo”, analisa. Além disso, a professora aponta que o uso do Facebook agilizou a produção: “Antes precisava digitar, ler, imprimir. No Facebook eu tenho a resposta na hora, porque os alunos estão sempre lá”. No entanto, a educadora admite que a experiência não teria sido tão positiva, caso ela tivesse compartilhado seu perfil pessoal. “O Facebook ainda é um jogo entre o público e o privado”, reflete.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A educação à prova no Brasil!!

Se contarmos o período de nossas vidas que passamos em sala de aula, em especial aqueles ou aquelas que chegaram ou chegarão a concluir o ensino superior, muitas milhares de horas temos em nossa bagagem.


Estando nos últimos anos na posição de professor e não mais de aluno, observo como as coisas mudaram no campo educacional, no que se refere ao chão da sala da de aula, com o crescente sucateamento das escolas e da própria formação do docente.

Estatisticas e mais estatitiscas mostram como nossa realidade educacional esta na UTI e como a recuperação é lenta demais, sempre a décadas de descaso e abandono. Os últimos anos aconteceram avanços, mas como o texto abaixo bem aponta, ainda é muito pouco sempre a nossas dificuldades.

Em um contexto de lutas, com greves e paralisações por todo Brasil, precisamos cobrar cada vez mais que se efetivem os financiamentos necessários aos processos de escolarização, sempre lembrando que não se gasta dinheiro em educação, mas sim se faz um investimento!

A Educação e a prova dos nove

 

Apesar de inúmeros avanços nos últimos anos, estamos apenas caminhando em uma área na qual o País precisaria estar voando. O que impera é não só o dissenso, fustigado pelo obscurantismo, como uma disputa sobre o papel do sistema público, seu peso no orçamento do Estado e sua relação com o mercado da educação, um dos mais rentáveis do País.

Ao contrário do que parece, não existe e nunca existiu no Brasil o propalado consenso sobre a importância da educação. O que impera é não só o dissenso, fustigado pelo obscurantismo, como um disputa sobre o papel do sistema público, seu peso no orçamento do Estado e sua relação com o mercado da educação, um dos mais rentáveis do País.

É curioso, mas dificilmente fruto de uma mera coincidência, que o fogo cruzado contra o ministro da Educação, Fernando Haddad, tenha se intensificado justamente quando o debate sobre o Plano Nacional de Educação e sobre o futuro de suas políticas no País deveria ser o mais relevante a ser travado neste momento.

Apesar de inúmeros e significativos avanços nos últimos anos, estamos apenas caminhando em uma área na qual o País precisaria estar voando.

O principal obstáculo decorre do fato de que a educação sofreu um profundo processo de fragmentação, confusão gerencial, subfinanciamento, desmonte de suas estruturas e desarticulação dos setores defensores do sistema público.

A Constituição de 1988 promoveu uma positiva institucionalização da autonomia dos sistemas estaduais, municipais e da universidade. Promoveu a descentralização e a expansão da oferta de vagas, rumo à quase universalização do ensino fundamental.

Todavia, sobretudo a partir dos anos 1990, o federalismo brasileiro passou por um processo de grave distorção. A falência econômica de muitos Estados, por conta de gestões irresponsáveis ao longo dos anos 1980, e suas políticas de terra arrasada (torrar recursos e deixar a casa destruída para governos seguintes) levaram a um contexto favorável ao ajuste fiscal rígido.

Estados e Municípios foram obrigados a reduzir custos, e a educação foi um dos setores prioritários da operação-desmonte. Salários dos professores foram achatados e proliferaram os contratos temporários. Muitos se tornaram “concurseiros”, policiais, funcionários de bancos, analistas de carreiras vinculadas à gestão da máquina do Estado (tributação, orçamento, administração) e tudo o que, com salários bem mais elevados, demonstrava que a educação não era prioridade.

Ao mesmo tempo, escolas desmoronavam sobre a cabeça de alunos e professores. O ensino técnico havia sido abandonado. O ensino médio, excluído do Fundef, foi deixado à míngua. A maioria dos governadores, na prática, abandonou por completo seu compromisso com a educação, preferindo redirecionar a missão essencial dos Estados às políticas de desenvolvimento econômico, com estímulo à guerra fiscal e obsessão por atrair empresas e e empreendimentos que guardariam relação direta com o financimento de campanhas políticas.

A educação chegou ao fundo do poço, e é por isso que ainda é tão difícil esperar que ela dê saltos. Cada tentativa tem o provável resultado de bater com a cabeça na parede.

A fragmentação é tal que há diferenças muito pronunciadas de desempenho entre Estados vizinhos, em uma mesma região, e mesmo de escolas vizinhas, em um mesmo município. A depender do governador, do prefeito e até do diretor, a cada quatro anos tudo pode ser perdido, e a educação passar do vinho ao vinagre. Avanços de uma gestão podem ser revertidos pelas gestões seguintes.

O governo Lula patrocinou grandes conquistas, sob o comando do ministro Haddad. Elevou o gasto com educação e transformou o Fundef em Fundeb, finalmente abrangendo o Ensino Médio. Lula também tomou a decisão crucial de suspender a Desvinculação das Receitas da União (a famigerada DRU), que diminuía o valor dos recursos a serem repassados para a educação. Desde 2003, foram construídos 214 centros de formação profissional e tecnológica, mais do que os 140 erigidos desde 1909. Há 14 novas universidades, além de mais de 30 novos campi ligados às universidades já existentes.

O Judiciário brasileiro também deu uma contribuição importante, recentemente, derrotando cinco governadores que haviam pedido a decretação da inconstitucionalidade do piso salarial dos professores estabelecido nacionalmente.

Reverteu-se a absurda situação anterior, na qual, em nome da “responsabilidade” fiscal, o Governo Federal se desincumbia de cumprir sua responsabilidade com a educação.

O fato de o Brasil ocupar, segundo a Unesco, o 88º lugar, entre 127 países, e o 53º, entre 65 países pesquisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem muito a ver com o fato de a educação ser, igualmente, não a primeira, mas a 53ª ou a 88ª prioridade de muitos governos estaduais e municipais.

É fácil jogar toda a culpa, ou a maior parte dela, sobre o Ministério da Educação (MEC), e mais especificamente, sobre os ombros do ministro Fernando Haddad. Fácil, mas simplista.

Certamente, o MEC cometeu vários erros. O ministério não se empenhou por consolidar a coalizão de defesa do sistema público para além de suas reuniões com outros governos. Demorou muito para fazer a Conferência Nacional de Educação e está longe de ter uma boa relação com as organizações nacionais de professores. Não priorizou o tema da gestão democrática, verdadeira pedra de toque da autonomia do ensino, mas que precisa de parâmetros claros para que não seja mais um ingrediente de desagregação do sistema.

Também não conseguiu estabelecer uma nova estratégia de relacionamento com Estados, Municípios e DF. Hoje, a política do Governo Federal para a educação não é uma política de educação nacional. O que existe são diferentes políticas educacionais espalhadas pelo país, e o esforço do MEC no sentido de harmonizá-las por estratégias de apoio e cooperação.

Mas os ataques que Haddad tem sofrido ultimamente vêm de quem nunca o aplaudiu, quando de seus acertos. A coalizão que mira no MEC quer acertar na testa destes avanços proporcionados em menos de uma década

Quem conhece um pouco da história da educação no Brasil sabe que inúmeras tentativas de transformá-la mais profundamente são estigmatizadas com pesadelos e fantasmas.

Por exemplo, nos anos 1930, o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, chamou para conduzir seu projeto de reforma do ensino ninguém menos do que o honorável Anísio Teixeira, velho batalhador da educação pública, laica e inovadora. Ambos criaram, como modelo, a Universidade do Distrito Federal. Entre em seus quadros, estavam nomes que reinventaram as ideias sobre o Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, Cândido Portinari, Heitor Villa Lobos, Cecília Meirelles, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Gilberto Freyre e Mário de Andrade. Portanto, gente de todos os matizes.

O que isso rendeu a Pedro Ernesto? A acusação, feita pelos conservadores, de abrigar comunistas, de ser um ateu, contrário ao ensino da palavra de Deus. Anísio Teixeira demitiu-se. O prefeito foi exonerado e preso, acusado de simpatia com comunistas. A UDF foi absorvida, no Estado Novo, pela Universidade do Brasil (atual UFRJ) e seus professores passaram a ser contratados com crivo sobre suas convicções ideológicas e religiosas, sob a lupa de Alceu Amoroso Lima e do Cardeal Leme.

O projeto de Anísio Teixeira retornou revigorado, décadas depois, em Brasília, no projeto de Escola Parque, de tempo integral, e com Darcy Ribeiro, com a Universidade de Brasília. Nova ditadura, a de 1964, interrompeu o experimento.

A educação no Brasil, sucessivamente golpeada pelo autoritarismo, em períodos democráticos é bloqueada quando pretende avançar. É por isso que ela se arrasta vagarosamente. A primeira Lei de Diretrizes e Bases só foi promulgada em 1961, sendo que estava prevista desde a Constituição de 1934 (na forma de um Plano Nacional de Educação). Foram 13 anos de tramitação, desde o envio de seu projeto, em 1948. A segunda LDB, estabelecida pela Constituição de 1988, só chegaria à sua redação final em 1996.

A institucionalização das regras nacionais para a educação é sempre muito lenta. Isso nada tem a ver com democracia e tempo de debate. Pelo contrário. Esses projetos são deliberadamente entregues a uma tramitação modorrenta, com parlamentares que se esmeram por mantê-los em total monotonia, enquanto agridem a compreensão pública com polêmicas disparatadas. Atiram para todos os lados em questões pontuais, enquanto agem solenemente em prol do silêncio de cemitério, trilha sonora mais comum do debate sobre os rumos da educação.

Enquanto esperamos que o MEC seja rápido para corrigir seus erros e evitar que eles se repitam (como no caso do 10-7=4), é preciso ter clareza dos grandes desafios que se tem pela frente. O importante já não é apenas superá-los, evitando retrocessos, mas fazê-lo ainda mais rapidamente. O atraso histórico amargado pelo sistema público de educação é de tal monta que mesmo alguns resultados exuberantes colecionados nos últimos anos deixam a sensação de uma vitória de Pirro para professores e estudantes.

Mais do que dar continuidade ao que foi feito, seria hora de uma guinada.

Antonio Lassance é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.