Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

A grande dúvida sobre este nosso primeiro semestre de 2017 e toda a turbulência que se apresenta no cenário político é o que se passa nos bastidores das oligarquias que buscam manter seus privilégios e o poder de qualquer forma. Em resumo, o que ainda prevalece são os interesses privados frente ao público. Triste nação que vivemos em que ainda uma empresa dominada a agenda nacional.

A crise política e o enigma da Globo

por João Feres Júnior — publicado 20/05/2017 10h20, última modificação 20/05/2017 18h12
O que leva a empresa a descartar o arauto de sua agenda política?
GloboNews
Não sei o que é mais ridículo nessa crise turbinada na qual o País embarcou com as delações da JBS, o tom de indignação dos âncoras e comentaristas da grande mídia perante o deslindamento dos esquemas de corrupção envolvendo Michel Temer, Aécio Neves et caterva (nunca essa expressão latina foi tão bem empregada), ou a reação de incredulidade e desilusão de boa parte da classe média perante o noticiário. No caso dos lacaios da grande mídia, o ridículo reside na farsa descarada de seu comportamento. Já a classe média passa pelo ridículo daqueles que dão sinais da estupidez em público sem se darem conta disso.
Ora, quem não sabia que Temer, Aécio e seus aliados estavam envolvidos em todo tipo de maracutaia? Resposta: somente os pobres de espírito, entendendo esta palavra no seu sentido filosófico de desenvolvimento da mente. Corta para o detalhe cômico de o delator Saud dizer que Temer e Kassab se distinguiam por abertamente reservarem propina para gastos pessoais, enquanto todos os outros recipientes pelo menos tinham o pudor de tomar o dinheiro para fins de campanha, prima facie, é claro.
Não há nada de muito novo nessas delações além da verdade escancarada dos fatos, no atacado, e de provas materiais contra alguns delatados. Apesar de isso não ser pouca coisa, os fatos em si não deveriam surpreender a ninguém. O que é na verdade surpreendente, ou seja, a grande questão que se coloca para a análise política nesse momento é o racha que começa a se desenhar entre os órgãos da grande imprensa.
Enquanto a Folha de S. Paulo e o Estadão adotam posição de bombeiro da crise, lançando em suas capas e editoriais dúvidas sobre as acusações contra Temer, a rede Globo, por meio de todos os seus meios, move campanha ferrenha contra Temer e de lambuja contra Aécio, até há pouco um verdadeiro darling das empresas dos Marinho, com direito a amizade sincera e pública com figuras como Luciano Huck e Ronaldo Fenômeno.
Os jornalões paulistas fazem o que era esperado deles, apoiaram Temer desde o início, a Folha de modo bem mais recalcitrante, isso é verdade, e agora se aferram a sua opção política original, cerrando fileira com a defesa do presidente, ainda que já permitam colunistas bem mais críticos pedindo a cabeça de Temer em suas edições.
Quem se comporta de maneira muito atípica é o Grupo Globo. Temer é massacrado pela cobertura do jornal, da rede aberta e do canal noticioso de cabo. Dedicam a ela uma cobertura somente comparável àquela recebido por Lula, personagem ao qual o grupo dedica publicamente ódio mortal, descartando todos os rituais de pretensa neutralidade e equilíbrio jornalístico em favor de um tratamento abertamente persecutório.
O editorial do jornal O Globo do dia 20, publicado antecipadamente no site na tarde de hoje (19 de maio), pede a renúncia de Temer, ainda que reafirme o apoio a sua agenda reformista neoliberal. Está aí mais um elemento de surpresa.

O Globo

A grande empresa de mídia quer descartar o arauto de sua agenda política. O que leva a Globo a agir dessa forma? Quais seriam os planos por trás desse comportamento que a distancia dos demais membros da grande imprensa, até há pouco muito alinhados em suas posturas e ações políticas?
É muito difícil responder essa pergunta. Podemos, porém, tentar encaixar algumas peças do quebra-cabeça com a esperança de adivinhar os contornos da figura. O primeiro argumento a descartar é aquele contido no editorial, de que estariam fazendo isso porque o presidente não pode cometer atos eticamente tão reprováveis. O cinismo aqui é evidente e nem vale a pena perder linhas de texto em provar que tal argumento é pura balela.
Outro argumento improvável, que anda circulando pelas redes, é que a Globo (e uso essa expressão para me referir ao Grupo Globo) já tem sucessor para Temer e por isso não vê a hora de se livrar do presidente apodrecido. Ora, qualquer operação de substituição do presidente nesse clima de instabilidade é altamente arriscada e mesmo uma empresa do porte da Globo não tem como controlar todos os resultados.
A versão mais crível desse argumento fala de uma reunião entre a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, e empresários, incluindo Carlos Schroeder, diretor geral da TV Globo, no último dia 8 para tratar de um desenlace para a crise que fosse operado por via judicial. Mesmo que os participantes tivessem informações privilegiadas sobre as delações dos irmãos da JBS, nada garante que a ministra tenha poder para controlar o processo de substituição de Temer.
Só sobra a informação, não confirmada, de que o Grupo Globo depende muito das verbas publicitárias da JBS, particularmente por passar atualmente por aperto financeiro, e isso estaria por trás de sua posição anti-Temer. Não é que a Globo seja contra Temer. Pelo contrário, já declarou inúmeras vezes em editoriais sua simpatia pela agenda tucana do pemedebista, assim como a cobertura de seus jornais lhe tem mostrado imenso favor, como podemos confirmar nas análises do Manchetômetro.
Agora, os destinos de Joesley Batista e de seu irmão Wesley se chocaram, porém, com o do presidente ilegítimo. Se a delação combinada com eles se mostrar inócua, provavelmente não escaparão da cadeia. Então, agora é Joesley e Wesley ou Temer. A empresa da família Marinho parece ter feito sua escolha.
Ah, já ia me esquecendo de Aécio. Esse parece ter ficado pelo caminho. Com a prisão da irmã, perdeu sua capacidade de operação. Só a ele esperar que Luciano Huck e Ronaldão venham lhe prestar solidariedade nessa hora difícil. Afinal de contas, amigos são para essas coisas. 
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/politica/a-crise-politica-e-o-enigma-da-globo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Um texto que descreve com clareza e objetividade de que formas o espaço público e político está sendo manipulado como forma de garantir benefícios a um determinado grupo que vêm, desde a saída da presidenta, orquestrando planos, ações e destruindo as políticas públicas, gerando lucro para uma minoria (da qual fazem parte) e levando a maioria da população a enfrentar um futuro de miséria, exploração e incertezas. Isso se houver ainda um Brasil no futuro! 

Sob Temer, Brasil vivencia festival de mediocridade e escárnio

por Roberto Amaral — publicado 10/02/2017 

No comando da Câmara e do Senado, dois figurões das delações da Odebrecht. No STF, um colecionador de filiações em siglas do poder

Marcelo Camargo/ABr e Wendel Lopes/PMDB
Trinca
Rodrigo Maia e Eunício Oliveira poderão ser julgados por Moraes, homem da confiança de Temer

A primeira semana de fevereiro foi pródiga em mediocridade e escárnio. Como anunciado, foram eleitos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, respectivamente, Eunício Oliveira e Rodrigo Maia, também conhecidos pelos codinomes de ‘Índio’ e ‘Botafogo’ nas listagens de beneficiários de doações ilegais da Odebrecht. Michel Temer, desinibindo-se e decidido a também não mais disfarçar, cria mais um ministério para instalar Moreira Franco, seu colega de trupe e truz, e assim assegurar-lhe foro privilegiado em provável processo da Lava Jato. 
O novo secretário-geral da Presidência, citado 34 vezes em uma única delação, é conhecido, nas listagens de suborno, como ‘Angorá’, que nos remete a um curioso remoque de Leonel Brizola. O coroamento desse festival de absurdos é a indicação do truculento ex-chefe de polícia de Geraldo Alckmin para a Suprema Corte. Gilmar Mendes, aquele que não disfarça seu partidarismo, aguarda-o para um dueto. 
Quem será o substituto de Teori Zavaschi, o discreto? Vejamos. 
A grande imprensa reproduzindo releases oficiais apresenta Alexandre Moraes como jurista, mas é jurista menor, sem prestígio entre os colegas, autor de livros não lidos e não citados, mais conhecidos como literatura para cursinhos de vestibulares. Advogado de banca modesta, seu mais notável cliente é o ex-deputado Eduardo Cunha, hoje na cadeia. No portfólio cabe o registro de uma cooperativa de transportes investigada por ligações com o PCC. 
Fez carreira profissional fora da advocacia, no serviço público, em cargos comissionados nos vários governos tucanos paulistas, até alçar-se à chefia de polícia de São Paulo e daí, por seus defeitos (notadamente o gosto pelo espancamento), ser catapultado para o Ministério da Justiça – onde teve passagem desastrada – e, afinal, o Supremo Tribunal Federal. Sua vida acadêmica não é menos deslustrada. Foi reprovado no exame para a livre-docência e preterido no concurso que aprovou Ricardo Lewandowski. 
Mas o senhor Moraes (apelidado de 'jardineiro paraguaio', por um vídeo que fez circular na internet, em que desbasta plantações de maconha no país vizinho, com involuntária jocosidade) não foi indicado pela formação técnica, que não ostenta, nem pela discrição, que não é seu apanágio. Foi escolhido por sua militância político-partidária e pela fidelidade  (valor cultivado como dogma por determinados grupos sociais) a companheiros e eventuais chefes que dele fazem um homem de confiança. 
Prevenido, o multicitado Temer vai arrumando as peças necessárias para enfrentar o ainda desconhecido, pelo menos do grande público, conteúdo das delações da Odebrecht, mantidas sob injustificado sigilo pelo STF. 
Conservador, do ponto de vista político-ideológico, o futuro sucessor de Teori Zavaschi é um colecionador de filiações em siglas do poder: começou no PFL, ex-ARENA e hoje DEM, passou para o PMDB, e agora está no PSDB de Alckmin, flertando com José Serra e Aécio Neves, adversários in pectoris do governador. Afinal terá sua indicação aprovada pelo Senado, asseguram-lhe o presidente Eunício Oliveira e os líderes Romero Jucá (do Governo) e Renan Calheiros (do PMDB), ambos  alvos de delações, acusações e inquéritos no Supremo. 
Estes mesmos senhores serão julgados por Alexandre Moraes, que, antes, será sabatinado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, presidido pelo senador Edison Lobão (PMDB), outro frequentador das listagens de suborno e à mercê de responder a processo no STF. 
Ministro mais novo na casa, será o revisor dos processos da Lava Jato no pleno da Corte, e assim atuará, desenvolto, em julgamentos envolvendo o presidente da República que o indicou (Temer, lembremos, é referido em delações da inesgotável Odebrecht) e de colegas do governo de que participou exercendo cargo de confiança. 
Temer
Desinibido, Temer não se preocupa mais com as aparências (Andressa Anholete/AFP)
Decerto Moraes não irá declarar-se impedido. A facção chefiada por Michel Temer inclui, entre personagens menos cotados, e ameaçados de julgamento, Sérgio Machado, o delator-mor, os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, reincidentes, e o ex-presidente José Sarney, isto é, a fina-flor do PMDB governante, denunciados recentemente pelo Procurador-Geral da República pela tentativa de obstruir a Lava Jato. Do julgamento de todos eles participará, sem reserva ética, novo ministro. 
Dizem os jornais que na costura da escolha de Alexandre Moraes esteve o ministro Gilmar Mendes, sempre ele, em conciliábulos entre o Jaburu e o Planalto. Desse ministro pode-se dizer que lhe sobra a cultura jurídica que falta a Alexandre Moraes, mas isso não o impede de ser um mau juiz. Sobram-lhe o partidarismo, o envolvimento político, as decisões que agridem a ordem jurídica, o boquirrotismo fora dos autos, a promiscuidade com o Poder, as antecipações de voto,as agressões a colegas,  as liminares políticas, os pedidos de vista capciosos, as infrações ao Código de Ética da Magistratura. 
Sem despojar-se da toga, e por isso mesmo manchando-a, Gilmar Mendes se transformou em uma espécie de condestável da República e bruxo-conselheiro do presidente da República, que julgará ainda neste ano. Presidente do TSE, Mendes, como se sabe, presidirá o julgamento das contas de campanha da chapa Dilma-Temer, que poderá levar à cassação do mandato do atual presidente. Foram interpostos no Senado dois pedidos de impeachment de Mendes, ambos indeferidos pelo senador Renan Calheiros, que deverá ser julgado no STF pelo beneficiado. 
Tudo, portanto, sob rigoroso controle no regime de exceção. Exceção legal, exceção ética. Esse quadro de degradação republicana deve, no mínimo, provocar uma reflexão profunda sobre os critérios de escolha e nomeação de ministros da Suprema Corte, apartando-os da herança do direito norte-americano do século XIX, e a primeira reforma haverá de ser o fim da vitaliciedade antirrepublicana, substituída por mandatos de dez anos, não renováveis, de par com o fim do foro privilegiado.
Esse debate deve compreender o papel do Conselho Nacional de Justiça e maior democratização e transparência do hoje imperial Poder Judiciário brasileiro. Não pode estar ausente o Conselho Federal da OAB e o silente Instituto dos Advogados Brasileiros, mas deve ser uma plataforma das forças progressistas e democráticas do País. 
A reforma do Poder Judiciário como um todo consiste, portanto, em tarefa a ser tomada a peito pelas esquerdas como ponto de partida para a revisão de seu próprio projeto político.  É preciso, urgentemente, transitar do ‘Fora Temer’ para a construção de um programa alternativo ao neoliberal, autoritário, classista, reacionário que ora se consolida. O Brasil do futuro, se futuro houver, não nos perdoará a omissão, nem tampouco a acomodação. 
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/sob-temer-brasil-vivencia-festival-de-mediocridade-e-escarnio

terça-feira, 19 de abril de 2016

Existe ainda vida no jornalismo brasileiro!!
Interessante e objetiva a análise neste artigo que segue acerca de como a mídia nacional que domina os principais meios de comunicação (a um bom tempo por sinal) e dita a "agenda" de interesse dos brasileiros e brasileiros foi um elemento fundamental para legitimar todo este processo político pelo qual passa o país atualmente. Para além do contra ou a favor do impeachment, o texto aborda o papel do jornalismo nesse processo.
Uma leitura que possibilita entender os caminhos pelo qual nosso jornalismo e o acesso a informação ainda são um de tantos desafios para uma sociedade mais justa e democrática. Parabéns a todos os jornalistas que levam sua profissão a sério e com ética, diferente da grande maioria que se submete a alugar suas bocas, canetas ou teclados a interesses particulares e não ao bem da sociedade. 


A legitimidade do impeachment construída pela grande mídia
A aprovação do impedimento de Dilma foi alvo de uma construção de sentidos junto à “opinião pública” e se mostrou elemento essencial deste jogo
por Intervozes — publicado 18/04/2016 18h46

Página 12
Página 12, da Argentina: denúncia do golpe na imprensa internacional destoa da cobertura brasileira
Por Mônica Mourão e Helena Martins* 
A ausência de discussões profundas sobre a situação do país e o excesso de discursos reacionários que vimos no domingo 17 não se restringiram às falas de parlamentares na Câmara dos Deputados. Nos últimos meses, foram recorrentes também nos meios de comunicação brasileiros.
Desde o ano passado, toda uma construção de sentidos veio legitimando a aprovação da admissibilidade do pedido de impedimento da Presidenta Dilma Rousseff. Assim, a “opinião pública” - em essência, a “opinião publicada” pelos órgãos de comunicação hegemônicos –, um elemento essencial deste processo, se mostrou garantida neste jogo.
Não era preciso, portanto, ir muito além neste domingo. Assim, a cobertura do dia da votação foi permeada por uma maior sutileza em relação à exposição dos posicionamentos dos grandes conglomerados midiáticos – seguindo a tendência dos últimos dias, como já tínhamos mostrado neste blog.
Exceções em tom mais agressivo ficaram a cargo de emissoras de rádio como a Jovem Pan, que transmite em cadeia nacional e manifestou sistematicamente, num discurso grosseiro e conservador, seu apoio à queda do governo.
A TV Globo anunciou que acompanharia as movimentações no Congresso Nacional a partir das 9h da manhã. Poucos minutos depois, começou a entrar com flashes do jornalismo em meio à programação de esportes e entretenimento.
A partir das 14h, com o início da sessão na Câmara, deu exclusividade à cobertura política. Durante todo o dia, o equilíbrio da reportagem foi bem maior do que no início da crise, quando a Globo atuou como agente político importante, conclamando a população a ir às ruas contra o governo.
Contudo, o equilíbrio pretendido foi apenas aparente. Uma análise atenta permite perceber as artimanhas do discurso. Até o início da votação, ele se baseou principalmente em dois pilares complementares: a defesa da legitimidade do processo de impeachment e das manifestações de rua a favor da derrubada da Presidenta.
Logo em sua primeira participação, Alexandre Garcia tratou da derrubada de Fernando Collor, comparando os dois processos. Segundo o jornalista, desta vez, houve bem mais tempo entre o pedido de saída da Presidenta e sua análise pela Câmara do que ocorreu com Collor, em 1992.
Garcia também afirmou que o Supremo Tribunal Federal (STF) legitimou o processo, ignorando as opiniões contrárias de dezenas de juristas que defendem não haver motivos legais para o impedimento de Dilma e o fato de o Supremo ter se debruçado sobre o rito e não sobre o mérito da questão.
Mais tarde, destacou os atos pró-impeachment, dizendo que “a cidadania está nas ruas, mostrando que não fica em casa pra ver a banda passar”. As “ruas” foram identificadas com uma parte dos manifestantes apenas, constituindo mais um argumento a favor da legitimidade da mudança no comando do país.
Ao longo das entradas ao vivo dos atos, os milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o país contra a medida foram caracterizados como ligados a partidos políticos, à base aliada do governo, a centrais sindicais e ao PT (representado pela cor vermelha, ignorando que o simbolismo político dela é mais amplo e anterior à existência deste partido).
Na manhã da segunda 18, a manchete na capa do portal d'O Globo era nítida: “Manifestantes contra Dilma comemoram; petistas choram”. Dessa forma, a legitimidade das “ruas” foi construída de acordo com a agenda política da emissora, que optou inclusive por invisibilizar setores críticos ao governo, mas que protestaram em defesa da democracia.
Cobertura rasa
A estratégia do Grupo Globo, seguida por boa parte da mídia brasileira, também se manifestou na cobertura rasa dos fatos e na ausência de jornalismo de fato. Registros dos atos e de declarações de deputados foram abundantes. Não se viu, contudo, apuração, investigação, contextualização e problematização do processo em curso.
Os argumentos que embasam o pedido de impeachment não foram apresentados, muito menos os de sua defesa. Nenhum convidado externo – nem mesmo um "especialista" alinhado ao posicionamento da Globo – foi convidado a discutir a situação do país.
Ao longo de toda a manhã, a GloboNews, principal canal jornalístico do país, se limitou a acompanhar atos favoráveis e contrários ao impeachment em diversas cidades, na cobertura comandada por Leilane Neubarth e Raquel Novaes. Uma vez mais, a escolha dos ângulos das imagens, em geral, favoreceu o primeiro grupo. Imagens muito abertas ou muito fechadas do ato em Copacabana contra o impeachment deram a entender que a quantidade de presentes era menor do que a realidade.
No Salão Verde da Câmara, após uma das entrevistas de Cristiana Lôbo com deputados, ao falarem dos parlamentares indecisos, Novaes chegou a questionar se a indecisão era porque eles não teriam chegado a uma conclusão jurídica ou se, de fato, o processo estava completamente "politizado". A pergunta ficou sem resposta.
Apesar da crise profunda que vivemos, a política foi reduzida pelos meios de comunicação a artimanhas de bastidores e o processo do impeachment, a uma troca de ocupantes da cadeira. Assim, a suposta imparcialidade escondeu, na verdade, a escolha de não aprofundar a análise do fato e de suas implicações para o presente e o futuro do país.
A mesma abordagem tem marcado a cobertura do dia seguinte à votação. Os principais canais de TV insistem apenas em recuperar os números e movimentações que ocorreram no domingo e a descrever as próximas etapas do afastamento, agora no Senado. As críticas, uma vez mais, ficam a cargo da imprensa internacional.
O conservador La Nación, da Argentina, falou em “vergonhosa tentativa de golpe”. OPágina 12 tamém destaca, na capa desta segunda, a ocorrência de um golpe, anunciado em letras garrafais na edição. A votação de domingo é definida assim: “em um virtual golpe institucional, a Câmara dos Deputados do Brasil, presidida pelo político mais denunciado por corrupção, aprovou o impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff”.
Cunha protegido 
Se lá fora a ficha corrida de Eduardo Cunha é considerada um elemento central deste processo, por aqui ela está longe de ganhar destaque. A TV Globo, antes da votação, cuidou de contextualizar seletivamente as figuras políticas envolvidas no jogo. Enquanto o líder do governo José Guimarães (PT) mereceu uma associação ao irmão José Genoíno, condenado no processo do mensalão, o presidente da Câmara não teve sua reputação posta em xeque.
William Bonner chegou a lembrar que ele é alvo de processos, mas sem explicar quais ou informar que já há provas contundentes de corrupção praticada por Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal e investigado pela Comissão de Ética da Câmara. Afinal, colocar dúvidas sobre quem conduz o processo de impeachment seria questionar a própria legitimidade da ação contra Dilma.
A imprensa escrita também aliviou para Cunha. Em matéria da Folha de S. Paulo que detalha biografias de participantes dos processos de Collor e de Dilma, Cunha é descrito como “presidente da Câmara dos Deputados, acolheu pedido de impeachment contra Dilma após ter perdido apoio do PT contra sua cassação”.
Já Dilma é a “acusada de ter praticado as pedaladas fiscais, entre outros” e Lindberg Farias é “senador (PT-RJ) investigado pela Operação Lava Jato, é um dos defensores de Dilma; afirma que o impeachment é ‘golpe’”.
Ao olharmos para a imprensa internacional, a diferença de abordagem fica clara. Nos últimos dias, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post, os três principais jornais americanos, destacaram as acusações que pesam contra aqueles que conduzem o processo de impeachment, especialmente Eduardo Cunha.
Nesta segunda, o britânico The Guardian, ao comentar a derrota do governo, não apenas citou corruptos como Cunha, Paulo Maluf e vários outros deputados que votaram contra Dilma quanto destacou o teor reacionário de suas falas.
“Numa noite escura, o ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, um deputado de extrema direita, dedicou o seu voto ‘sim’ à Carlos Brilhante Ustra, um coronel que chefiou a unidade de tortura do Doi-Codi contra a ditadura. Rousseff, uma ex-guerrilheira, estava entre os torturados”, escreveu o correspondente, fazendo críticas a diferentes partidos políticos brasileiros.
Depois das falas ouvidas neste domingo na Câmara, está claro que os desafioscolocados são enormes. Um deles, até hoje não efetivado, embora reivindicadohistoricamente, é uma mudança estrutural no sistema de comunicação do país. Ou enfrentamos esse debate, mesmo em meio à crise, ou não garantiremos qualquer diversidade de vozes e opiniões na mídia, e o poder da liberdade de expressão seguirá nas mãos de poucos.
Outras vezes veremos a democracia ser atropelada pela articulação de instituições que se valem de seu poder político, econômico e simbólico para definir os rumos da vida coletiva do país. O Brasil acordou hoje mais cinza. E isso se deve também à ausência de reformas e à atuação dos meios de comunicação no jogo político.
* Helena Martins e Mônica Mourão são jornalistas e integram o Intervozes. Colaborou Iara Moura.
Fonte: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/a-legitimidade-do-impeachment-tramada-pela-grande-midia>. Acesso em 19 abr. 2016. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Um texto interessante e inteligente para compreender alguns contextos que envolvem o terrorismo e as políticas de Estado que acabem produzindo situações que são abordadas, analisadas e compreendidas de formas diferentes. Até quando?

Paris e as lágrimas de crocodilo

As vítimas da ignomínia terrorista devem ser igualmente pranteadas
por Roberto Amaral — publicado 23/11/2015 01h25

Comecemos pelo incontroverso: o terrorismo não tem justificativa nem ética, nem moral, nem religiosa, nem política, nem tática, nem estratégica. É um ato de lesa-humanidade, primitivo e brutal que nega a civilização e a própria evolução humana. A medida de sua ignomínia independe de suas vítimas, se europeus ou norte-americanos ou judeus, se asiáticos ou árabes ou africanos ou persas ou turcos, ou palestinos, ou cristãos ou muçulmanos ou hindus. Se brasileiros. Onde quer que ocorra um só ato terrorista, a vítima é a humanidade como coletivo.
Por isso suas vítimas precisam ser igualmente pranteadas. Se o justo clamor provocado pela  barbárie que se abateu sobre os parisienses – decretada uma vez mais pelo chamado Estado Islâmico –, se levantasse ante todos os atos de terrorismo, a começar pela violência inominável e covarde do terrorismo de Estado das grandes potências ocidentais, talvez o mundo conhecesse menos horror e nós hoje não nos sentíssemos tão desamparados.
A indignação mediática que nos querem impor, porém, é seletiva, e contra esse viés precisamos reagir, pois só assim emprestaremos força moral à nossa reação. 
Caça da França
Querem justamente que choremos quando as explosões são em Paris (ou Nova Iorque, ou Madri) e atingem pessoas com as quais nos identificamos cultural e fisicamente, mas dessa mesma violência pouco nos falam quando explode em Cabul, ou quando suas vítimas são negros, ou árabes, ou asiáticos ou palestinos ou persas. Nesses casos a violência é banalizada porque não nos ameaça (ora, somos ocidentais e brancos!), assim como não nos atinge a violência urbana quando restrita às periferias de nossas metrópoles, fazendo vítimas predominante entre negros e pardos e pobres, sejam marginais, sejam civis indefesos, sejam policiais.
Na quinta-feira 12, na véspera dos atentados parisienses, cerca de 60 pessoas perderam a vida e os feridos contam-se em mais de duas centenas, vítimas de atentados levados a cabo pelos mesmos facínoras do EI. Mas desta feita a explosão do irracionalismo se deu no Líbano, e suas vítimas eram árabes, na maioria membros do Hezbollah, adversário de Israel, aliado xiita do Irã mas inimigo de morte do EI. 
Na Turquia, dias antes, o EI matara 100 pessoas na Estação Central de Ancara.
Suas vítimas não contaram com o pranto mediático, muito menos sequer uma vela foi acesa com a morte dos mais de 200 passageiros do avião russo derrubado nos céus do Egito, pelo EI, sempre ele.
Já entrou para o esquecimento a sorte dos 700 mil palestinos, expulsos de suas terras e de suas casas pelos continuados assentamentos do Estado de Israel. Não nos choca mais saber que se contam em cerca de 100 os palestinos mortos pelas incursões do poderoso exército de Israel, só no ultimo mês.
Sequer nos perguntamos quantas vidas foram ceifadas na Guerra contra o Afeganistão, quantas foram ceifadas na invasão do Iraque, quantas presentemente estão sendo ceifadas na Líbia e na Síria onde EUA, França e Inglaterra, que pretendem a derrubada de Assad, exercitam sua guerrinha-fria contra a Rússia, que dá sustentação diplomática e política ao ditador.
Para nós, em nosso distanciamento, foi impossível conhecer a dramaticidade da 'guerra' do Iraque promovida pelos EUA. Pela televisão, 'ao vivo a cores', em cadeia mundial, sem a visibilidade de cadáveres, sem sangue, a invasão foi, emocionalmente, apresentada como um reality show ou um vídeo game futurista. Registramos apenas a estética dos mísseis com suas luzes iluminado a escuridão do céu numa noite sem lua.
Síria, Turquia, Líbia, Iraque, todos fronteiras artificiais impostas pela Inglaterra e pela França a parir do Acordo Sykes-Piot (1916) que – violentando culturas e histórias milenares – serviu tão-só para redesenhar o Oriente Médio, para assim melhor explorá-lo.
Como surgiu esse ódio sectário que corre do Oriente Médio, e que se estende pela Ásia e pela Europa e vem ensanguentar as cidades mais queridas do Ocidente?
Quem financia tanto terror?
Quem entrega armas e equipamentos de guerra nas mãos desses facínoras?
A resposta inescapável é única: são os que hoje derramam lágrimas de crocodilo.
O chamado Estado Islâmico, uma decorrência da Al Qaeda – por sua vez uma criação dos EUA – é financiado pelos petrodólares dos países do Golfo Pérsico, à frente de todos a Arábia Saudita, a maior potência do Oriente Médio, e principal aliada do Ocidente (seja lá o que isso hoje signifique).
São também esses dólares que financiam a indústria bélica do EUA, da Inglaterra e da França, os maiores fabricantes de armas e equipamentos de guerra do mundo, os maiores fornecedores e os maiores traficantes de armas. E, não obstante, ou por isso mesmo, são eles, os fornecedores de armas aos terroristas que nos ameaçam e matam seus povos, membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Segurança?
Osama Bin Laden – é sabido – foi recrutado, treinado e financiado pelos EUA para dar combate às tropas soviéticas que defendiam o governo do Afeganistão. Em crise, a Al Qaeda (aquela do atentado contra as torres gêmeas) foi salva pela invasão do Iraque pelo segundo Bush. Dela surge o EI.
Assim e em nome de nada – ora em nome do combate a tropas soviéticas no Afeganistão, ora em nome de mentiras deslavadas (as 'armas de destruição em massa' de Sadam Hussein), ora sob o pretexto da defesa de minorias (Síria), ora sob pretexto nenhum (Líbia), os EUA – com a cooperação militar da França e da Inglaterra –, destruíram as estruturas sociais-religiosas do Iraque e dos demais países, acenderam conflitos religiosos e tribais, destruíram nações e as organizações políticas. Em  síntese, com a anarquia e o caos, ensejaram a proliferação de verdadeiros 'Estados' armados com exércitos agressivos, exércitos de terroristas aptos a agir em qualquer parte do mundo.
O Estado Islâmico e seu califado no Iraque e na Síria são fruto da invasão e destruição do Afeganistão, do Iraque, da Síria e da Líbia. A França interveio na Síria e os EUA financiam e dão assistência militar (inclusive com o fornecimento de armas e munições aos terroristas (que eles batizam de 'rebeldes') que lutam contra a ditadura de Bashar al-Assad, que, por seu turno, apoiado pela Rússia, combate o EI.
Os facínoras do EI colhem o fruto da destruição dos Estados árabes, de suas organizações sociais e politicas, e, nomeadamente, da destruição das forças armadas do Iraque, da Síria e da Líbia, cujos quadros foram atraídos pelos fanáticos, que também se beneficiam, ainda graças à intervenção do 'Ocidente', com o rompimento do tênue equilíbrio de forças entre xiitas e sunitas consequente das derrubadas de Saddam Hussein e Muamar Kadafi.
Os EUA, após a ignomínia do 11 de Setembro, conduziram operações secretas, com drones e execução de civis suspeitos em 70 países. Da injustificada invasão do Iraque – país que nada tinha com o ataque covarde – resultou uma guerra desastrosa (condenada até mesmo nas memórias do Bush pai) que fortaleceu a Al Qaeda (lembremos mil vezes, criada pelos EUA para combater os soviéticos  no Afeganistão) e propiciou as condições para o surgimento do EI. Deu no que deu. O medíocre François Hollande, elevado pelos terroristas à condição de 'presidente marcial' fala em guerra.
Que virá depois?
O simplório Jeb Bush, irmão do Bush 2 (o principal responsável pela depredação do Iraque e suas consequências vividas hoje), já declarou, em campanha pela candidatura republicana à presidência dos EUA, que o atentado de Paris é "uma tentativa de destruição da civilização ocidental".
Antes dele, e melhor e mais perigosamente do que ele, Samuel Huntington já havia anunciado o 'choque de civilizações' (na essência a 'guerra' contemporânea teria como eixo os conflitos culturais e religiosos, opondo nossas civilizações), dando sua lamentável contribuição para a intolerância e o ultra anti-islamismo que ameaça infeccionar a sociedade norte-americana.
O cenário é muito mais complexo do que supõe a mediocridade, dividindo o mundo entre os  'bons' (nós) e os 'maus' (os outros)  com o que a nova direita europeia (ex-socialistas incluídos) e os republicanos estadunidenses simplesmente repetem o maniqueísmo dos fanáticos que pretendem combater, os 'cruzados' com sinal trocado, pois, hereges, agora, somos nós, os que não seguimos Alá.
Algozes e vítimas, cada um a seu modo, se identificam na estratégia de propagar o ódio contra os que não compartilham sua ideologia. O ódio de um é a força que alimenta o ódio do outro e, assim, se tornam irmãos siameses e interdependentes.
Voltamos às Cruzadas?
A violência terrorista avança no mundo e agora grassa em uma Europa onde a xenofobia não é nova mas é crescente. As manifestações de preconceitos étnicos, especialmente contra os árabes, soma-se à intolerância religiosa, particularmente o anti-islamismo, reforçado pelos atos de terrorismo.
Essas manifestações prosperam em todo o mundo, mas avançam principalmente nos EUA (onde se tornam corriqueiras entre os pré-candidatos republicanos) e na Europa, símbolo de civilização que não conhece a inocência, mas sim a guerra como a arte da política: guerras fratricidas, guerras de conquista, séculos de exploração e depredação coloniais, uma história de colonialismo, pirataria, opressão dos povos subjugados. Em um só século duas guerras mundiais e o holocausto.
Fonte:http://www.cartacapital.com.br/internacional/paris-e-as-lagrimas-de-crocodilo-7992.html

quarta-feira, 29 de julho de 2015

As intervenções da Europa e Estados Unidos, juntos ou de forma separada, vem modificando a geopolítica internacional e interferindo diretamente em países, especialmente, do Oriente Médio e na África. Por várias razões e justificativas essas ações, armadas normalmente acontecem, deixam para trás, após a tomada do poder por grupos ou partidos pró-Ocidente, sociedades destruídas economicamente, socialmente e politicamente. Os impactos de médio e a longo prazo não são mensurados e o importante é o impacto a curto prazo. Ou será que esses impactos são mensurados pelos estrategistas em seus gabinetes? Só o tempo poderá nos responder pelo jeito....

Quatro anos depois, a Líbia é um caos
por José Antonio Lima — publicado 28/07/2015 
A União Europeia cogita sancionar guerrilheiros líbios contrários ao acordo de paz, rara boa iniciativa que pode ajudar o país africano
Quatro anos depois de abandonar a Líbia à própria sorte após a derrubada de Muammar Kaddafi, a Europa volta a prestar atenção ao país norte-africano. Pressionada pela crise humanitária que irrompeu no Mediterrâneo e expôs a hipocrisia do continente, a União Europeia cogita sancionar alguns guerrilheiros líbios que têm bloqueado a implantação de um acordo de paz mediado pelas Nações Unidas. Ainda que tardia, a ação pode ser benéfica para a Líbia e muito mais efetiva que a preocupante ideia de colocar uma força naval para combater os barcos de pesca de traficantes de pessoas.
A Líbia vive situação desastrosa. Desassistido após o assassinato do seu ditador, o país não conseguiu superar uma de suas mais nocivas heranças, a eliminação da sociedade civil, substituída, nos 40 anos de autoritarismo, por um culto forçado à psicótica personalidade de Kaddafi. Desde 2011, a Líbia teve duas eleições parlamentares, mas elas não foram suficientes para conciliar os interesses dos diversos grupos políticos e étnicos suprimidos por Kaddafi ao longo de quatro décadas. Engolfada em guerra civil iniciada em 2014, a Líbia corre o risco de se dividir.
Trípoli x Tobruk
O caos envolve dois governos que reivindicam a legitimidade sobre o controle do país. Na capital, Trípoli, está baseado o Congresso Nacional Geral, que não é referendado por nenhum governo estrangeiro. No leste do país, em Tobruk, cidade próxima à fronteira com o Egito, está o Conselho de Representantes, este reconhecido pela comunidade internacional.
Conhecido pela sigla GNC, o Congresso Nacional Geral foi eleito em julho de 2012 com a missão de coordenar a transição democrática da Líbia. Dominado por partidos islamitas (adeptos do Islã político), o GNC não teve sucesso. Milícias armadas que ajudaram a derrubar Kaddafi continuaram a exercer grande poder e o país viveu uma onda de assassinatos que vitimou dezenas de militares e ex-aliados desse ditador.
Em maio de 2014, o GNC foi vítima de uma tentativa de golpe. O artífice da ação militar foi o general Khalifa Haftar, hoje figura central na Líbia. Por cerca de 20 anos, Haftar viveu confortavelmente com a família no estado norte-americano da Virgínia, onde ganhou cidadania, e votou nas eleições de 2008 e 2009. A escolha desse estado como residência parece não ter sido uma coincidência: nas duas últimas décadas, Haftar trabalhou por algum tempo para a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos sediada em Langley, no norte da Virgínia.
O contato com a espionagem americana vinha de longa data. Em 1987, Haftar, então general do Exército de Kaddafi, caiu em desgraça com o ditador líbio após uma derrota para as forças do Chade em guerra entre os dois países. Abandonado pelo homem que se autoproclamava seu "pai espiritual", Haftar passou a liderar contra ele a Frente Nacional de Salvação da Líbia, baseada no próprio Chade e apoiada pela CIA. Em pouco tempo, a frente naufragou e Haftar, resgatado pelos americanos, foi para os EUA.
Desde a Primavera Árabe, Haftar esteve duas vezes na Líbia. A primeira em 2011, no auge dos protestos contra Kaddafi. Ele comandou alguns dos grupos armados anti-Kaddafi e tentou aproveitar o vácuo de poder para se posicionar na então florescente política líbia. Sem sucesso, o general voltou para os Estados Unidos, onde ficou até o início de 2014, quando retornou à Líbia para organizar o golpe contra o Congresso Nacional Geral, segundo ele uma necessidade diante dos "terroristas disfarçados de políticos" que controlavam o país.
Os grupos islamitas responderam por meios políticos e militares. De início, convocaram novas eleições, realizadas em junho de 2014. Derrotados, não reconheceram o resultado do pleito ou a formação do Conselho de Representantes. Em julho, milícias islamitas invadiram Trípoli e expulsaram o Conselho de Representantes para Tobruk. No vácuo de poder, parlamentares islamitas formaram um novo Congresso Nacional Geral e passaram a reivindicar o posto de governo eleito.
Muitos conflitos em um só
As ações de Haftar e das milícias islamitas galvanizaram a impressão de que o conflito na Líbia poderia ser reduzido a um confronto entre remanescentes do antigo regime e os adeptos do Islã político, nos moldes do que ocorre no Egito. Esse diagnóstico maniqueísta serve aos propósitos dos extremistas de ambos os lados, mas nubla a complexa realidade líbia.
As milícias islamitas coordenam-se por meio de um grupo conhecido como Amanhecer Líbio, que mistura islamitas moderados e fundamentalistas, muitos veteranos do Grupo de Luta Islâmico Líbio, que lutou ao lado de Osama bin Laden contra a União Soviética no Afeganistão e, depois, voltou suas forças contra Kaddafi.
Além desses, há uma série de revolucionários líbios com pouca ou nenhuma ligação com a religião, entre eles as milícias da cidade costeira de Misrata ou os bérberes, uma minoria líbia, que entraram no conflito por motivações tribais, territoriais ou étnicas. 
Amanhecer Líbio
Do mesmo modo, o lado de Haftar e do Conselho de Representantes conta não só com militares e ex-aliados de Kaddafi, mas com brigadas armadas de Zintan, cidade montanhosa rival de Misrata, e árabes beduínos do interior, todos engajados em acertos de contas e disputas antigas.
Sanções 
Em meio a esse caos, a Líbia tornou-se mais um país afetado pelo Estado Islâmico, o grupo extremista que tomou partes da Síria e do Iraque e tem exportado sua ideologia para outras regiões. Na Líbia, o Estado Islâmico controla a pequena cidade de Nawfaliyah e algumas partes da cidade de Sirte, e tem entre 3 e 5 mil recrutas, a maioria estrangeiros. Paraíso para os jihadistas, a Líbia se tornou campo de treinamento para terroristas internacionais, como o que matou dezenas de turistas ocidentais na Tunísia no fim de junho.
Além do ISIS, o vácuo de poder abriu as portas para quadrilhas de traficantes de pessoas, que agem livremente na Líbia. São essas as organizações responsáveis por usar o território líbio como base para enviar, em condições precárias, imigrantes de muitos países africanos para a Europa, que fogem da tirania, da fome e da doença.
Em 12 de julho, o enviado da ONU para a Líbia, Bernardino Leon, conseguiu que diversos grupos envolvidos no conflito, incluindo o governo reconhecido do Conselho de Representantes, assinassem um acordo de paz. O Amanhecer Líbio, o GNC e os militares ligados a Haftar, entretanto, negaram-se a referendar o novo processo de transição.
Diante disso, a União Europeia está, segundo a agência Reuters, preparando sanções pessoais contra cinco dos guerrilheiros: Haftar e o ex-comandante da Força Aérea Líbia Fakir Jarroushi, além de três chefes do Amanhecer Líbio: Abdulrahman Suweihli, Salah Badi e Abdulraouf Mannay.
É provável que o vazamento da informação sobre as sanções seja uma forma de pressionar os extremistas a optar pela mesa de negociações. Mais que isso, é um reconhecimento por parte da União Europeia de que a solução para a crise de refugiados passa pela governança da Líbia, e não é meramente uma questão de segurança.
Por quatro anos, os países europeus negligenciaram a Líbia, equivoco expresso pela diferença de gastos do Reino Unido com os ataques para derrubar Kaddafi e com a posterior reconstrução do país: foram 320 milhões de libras ante 25 milhões, quase 13 vezes mais. Foi preciso que os "indesejados" imigrantes batessem à porta da Europa para que os governantes do continente agissem. Ainda que com atraso, é hora de a UE mudar suas práticas e ajudar a Líbia a trilhar um caminho de estabilidade e prosperidade.
Fonte:<http://www.cartacapital.com.br/internacional/quatro-anos-depois-a-libia-e-um-caos-2005.html>. Acesso em 29 de julho de 2015.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O século foi marcado por inúmero conflitos que envolveram os países europeus, principalmente, e EUA em intervenções diretas ou indiretas nos continentes africano e asiático. Pós Segunda Guerra Mundial, o processo de independência e descolonização desses territórios foi ocorrendo aos poucos, mas as mazelas deixadas por séculos de ocupação, exploração, preconceitos e racismo se manteve. 

Um exemplo, de tantos possíveis, das consequências históricas desse processo é a questão dos refugiados e de como a mídia internacional não retrata como os países europeus são responsáveis diretos por essa situação, retratando as "buscas" e "salvamentos" como atos heroicos. Não se desmerece nem minimiza-se a importância humanitária dessas ações, mas sim se questiona e coloca em discussão as formas como a história é cada dia mais rapidamente esquecida, quando é conveniente. 

Mediterrâneo, um mar de hipocrisia

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 21/05/2015 02h47


Países ocidentais patrocinam guerras e intervenções, mas são apresentados como heróis na tragédia da imigração

Por Rossana Reis e Deisy Ventura
Nas últimas semanas, as notícias sobre a morte de milhares de seres humanos no Mar Mediterrâneo acabaram por revelar uma faceta muito desagradável de nós mesmos: a nossa infinita capacidade de eludir os fatos e tragar narrativas falsas, simplistas e unilaterais. A despeito dos acontecimentos, acalentamos nossa imaginação geopolítica na qual o papel dos heróis é invariavelmente representado pelos países ocidentais.
“Tráfico de pessoas” – grita a chamada de programas de televisão, enquanto mostramnegros sendo resgatados de navios indo a pique. Enquanto os náufragos recebem coletes alaranjados, o locutor descreve aajuda humanitária da Europa, passando a seguir à imagem do elegante primeiro-ministro italiano a anunciar o seu plano para lidar com a crise: “afundar os barcos” por meio dos quais os candidatos a refúgio tentam chegar a Europa.
Eventualmente, algum dos passageiros é entrevistado para ilustrar as condições deploráveis nas quais se faz a travessia, mas os milhares de africanos mortos não merecem, por exemplo, o tratamento pessoal dado às vítimas do acidente que vitimou 150 pessoas com a queda do Airbus A320 da Germanwings na França. É raro encontrar alguma reportagem em que a “voz autorizada a explicar” as repetidas tragédias não seja europeia.
Resgate de imigrantes no Mediterrâneo
Soa como desfaçatez, porém, falar sobre os resgates ou os naufrágios no Mediterrâneo sem mencionar os milhões de pessoas atingidas por conflitos armados, notadamente as guerras na Síria e na Líbia, e sem registrar, sobretudo, o papel ativo, se não o protagonismo, dos países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, no desenvolvimento desses conflitos – seja por razões geopolíticas ou econômicas.
Somente na Síria, desde 2011, já se contam 130 mil mortos; mais de 2 milhões de pessoas foram buscar abrigo em países vizinhos e acabaram em campos de refugiados; mais de 4 milhões de pessoas tiveram que abandonar suas casas. Na Líbia, onde em 2011 o ditador Muamar Kadafi foi assassinado em frente às câmaras de TV após uma intervenção da OTAN, autorizada pela ONU, a continuidade dos conflitos ajuda a produzir mortos aos milhares e refugiados aos milhões.
Se pudesse, você não tentaria fugir de situação semelhante? Mas são poucas as pessoas que sobrevivem a esta dura realidade e conseguem dinheiro suficiente para tentar escapar pelas rotas do Mar Mediterrâneo que levam à Europa. Entre aqueles que chegam, um número ainda mais reduzido consegue ter reconhecida a sua situação como refugiado – o que torna possível pensar em reconstruir a vida, pelo menos enquanto a situação em seus países de origem não se estabiliza.
A maior parte das pessoas aguarda “num centro de detenção para imigrantes” ou é mandada de volta ao lugar de origem, em um processo cujas garantias jurídicas oferecidas são mínimas. Os que conseguem permanecer na Europa, em geral, servem como bodes expiatórios de um mal-estar cultural profundo, de uma crise de representação política sem precedentes e da crise econômica. Já o quinhão de responsabilidade da Europa nos desastres humanitários que os empurram de suas terras ainda está longe de ser plenamente apurada.
Isso ocorre porque, ao mesmo tempo em que patrocinam guerras em outros continentes, os países europeus tornam mais restritivas suas regras para concessão de refúgio. Como cortina de fumaça, os líderes do Velho Continente promovem operações humanitárias para resgatar os possíveis imigrantes das mãos dos “verdadeiros culpados pela crise”, os traficantes de pessoas que são majoritariamente africanos, além de tomar as devidas providências para que a travessia não seja feita, em nenhuma circunstância. Vale a pena lembrar que, antes da eclosão da mais recente crise, esta já era uma rota bastante utilizada, e igualmente perigosa. Ainda assim, o governo italiano proibiu os barcos de pescadores da Sicília de prestar ajuda a qualquer tipo de embarcação em situação de risco, sob risco de serem acusados de “cumplicidade com a imigração ilegal”.
Ao longo dos anos, a combinação de “intervenções humanitárias” mal pensadas e mal conduzidas com políticas restritivas e discriminatórias de gestão de fluxos migratórios e de refugiados pela União Europeia vem provocando a morte de milhares de seres humanos no Mediterrâneo, e também vem afogando a todos nós num mar de hipocrisia. Nesta triste fábula da política contemporânea, os únicos heróis são aqueles que conseguem sobreviver às guerras, à intolerância, à política europeia, às ondas e à nossa apatia.  
*Rossana Reis e Deisy Ventura são professoras da Universidade de São Paulo e integrantes do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.
Fonte: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/mediterraneo-um-mar-de-hipocrisia-2718.html> Acesso em 27 mai. 2015.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Enquanto milhões de pessoas esperam com ansiedade pela Copa do Mundo (ansiedade essa influenciada pelo bombardeio midiático), milhões de reais foram desviados da entidade que deveria zelar pelo desenvolvimento do futebol no país. Um esporte, de tantos que temos, que acaba recebendo sempre a maior quantia de investimentos de recursos, como de espaço na televisão. 

E um esporte que tem seus barões a frente das entidades, como no caso da CBF ou das federações estaduais, onde a presença de familiares é uma constante e o público se torna privado. Aos poucos esta "caixa preta" é aberta, por alguns poucos repórteres que se habilitam a investigar as relações entre os dirigentes das entidades e empresas e empresários. Um apena luz no fim desse túnel que o futebol brasileiro, onde alguns poucos jogadores ganham alguns milhões e muitos ganham quase nada, sempre em busca de um sonho.

Com a Copa teremos um período de mais alienação frente a situação do nosso país e nenhum legado para a população em geral, das tão famosas obras de mobilidade urbana. E a vida segue para os milhões de trabalhadores brasileiros enquanto alguns poucos colherão muitos milhões de lucro em suas contas bancárias. E viva o país do futebol!


Os reis da maracutaia

Em o Lado sujo do futebol, quatro jornalistas detalham as mutretas de Ricardo Teixeira e João Havelange, símbolos da corrupção no esporte
por Rodrigo Martins — publicado 02/06/2014 04:39

A um mês da Copa do Mundo, a Fifa anunciou detalhes da festa de abertura. Antes de o Brasil enfrentar a Croácia no novo estádio do Corinthians, em 12 de junho, o show contará com a apresentação de mais de 600 bailarinos. Uma bola de 8 metros com milhares de lâmpadas de LED deverá se movimentar durante o espetáculo, com a participação do rapper Pitbull e das cantoras Claudia Leitte e Jeniffer Lopez. “A trilha sonora ficou muito bonita e levou dois meses e meio para ser composta”, anunciou, orgulhosa, Joana Havelange, do Comitê Organizador Local. A executiva só não antecipou se o pai, Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e o avô, João Havelange, presidente de honra da Fifa, vão prestigiar a festa.
Caso isso ocorra, será difícil as autoridades esconderem o constrangimento. Havelange e Teixeira ditaram os rumos do futebol brasileiro e mundial por mais de cinco décadas. Se o esporte mais popular do planeta acabou maculado por negociatas e tramoias variadas, muito se deve à dupla, que só largou o osso após a revelação de um multimilionário esquema de corrupção nas entranhas da Fifa. Pegos por um tribunal da Suíça, tiveram de devolver parte da propina e se afastar das entidades que presidiam ou mantinham influência. Essa longa trajetória de trapaças, fartamente documentada, é o centro do novo livro da editora Planeta, O Lado Sujo do Futebol, nas livrarias a partir do sábado 17.
Os autores são jornalistas experientes, embora sem trajetória na cobertura esportiva. Trabalharam juntos, de 2011 a 2012, em uma série de reportagens para a televisão sobre os desmandos de Teixeira e Havelange. Três deles ainda integram a equipe da TV Record: Luiz Carlos Azenha, Leandro Cipoloni e Amauri Ribeiro Jr., este último autor do livro Privataria Tucana(Geração Editorial), retrato da rede de corrupção montada a partir das privatizações no governo FHC. O quarto autor é Tony Chastinet, hoje na Band.
A obra de quase 400 páginas detalha como os cartolas transformaram o futebol em um negócio lucrativo, capaz de gerar recursos excedentes para assegurar o enriquecimento próprio e sua perpetuação no poder. Revela ainda como os dirigentes conseguiram escapar da maioria das denúncias, amparados na leniência do Judiciário e na intervenção amiga de parlamentares ligados a federações esportivas, a Bancada da Bola.
O principal mérito do livro é sistematizar as dezenas de acusações contra os cartolas, tanto aquelas extraídas de investigações oficiais, entre elas duas CPIs no Congresso, quanto de denúncias feitas pela mídia nacional e estrangeira. Ao volumoso trabalho de organização acrescentam-se revelações surpreendentes, a começar pelo involuntário pontapé dado pela Fifa nas investigações do esquema de corrupção da ISL, empresa que intermediava os contratos de televisão das Copas. Tudo começou quando Joseph Blatter, sucessor de Havelange no comando da Fifa, decidiu cobrar da massa falida da ISL o repasse de um pagamento da TV Globo pelos direitos de transmissão dos Mundiais de 2002 e 2006. Um promotor suíço resolveu investigar o caso a fundo. Por tabela, a Receita Federal do Brasil descobriria que a emissora da família Marinho sonegou 183 milhões de reais em impostos.
O livro esmiúça o relacionamento de Teixeira e do ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell. Parceiros de negócios por mais de uma década, envolveram-se em nebulosas transações comerciais que movimentaram mais de 45 milhões de reais. A proximidade era tamanha que o então presidente da CBF apresentou o espanhol a Neymar em um ônibus da Seleção Brasileira, um empurrão na contratação do atacante pelo clube catalão. A contratação, diga-se, é alvo de processo na Espanha.
Rosell chegou ao Brasil em agosto de 1999, cinco meses após o então deputado Aldo Rebelo, hoje ministro do Esporte, pedir a criação da CPI da Nike. Após o fracasso do Brasil no ano anterior, especulou-se que a multinacional poderia ter forçado a escalação de Ronaldo “Fenômeno”, seu principal garoto-propaganda, na final contra a França. Pouco antes da partida decisiva, o atleta apresentou sintomas de convulsão. Mesmo assim, entrou em campo. O resultado é conhecido por todos. Com a equipe apática, o Brasil perdeu de 3 a 0.
Ter a marca associada a uma CPI era tudo o que os executivos da Nike não desejavam quando assinaram, três anos antes, um contrato de patrocínio de 400 milhões de dólares com a CBF e a Trafic, detentora dos direitos de comercialização da Seleção Brasileira. “Os verdadeiros donos da bola são os patrocinadores. João Havelange e Ricardo Teixeira não passam de office-boys das grandes companhias de material esportivo, que investem pesado para associar suas marcas aos grandes atletas”, comenta Cipoloni.
Com a missão de estancar a crise, Rosell assumiu a direção dos negócios da Nike para a América Latina e instalou-se no Rio de Janeiro. Enquanto o brasileiro fazia lobby para enterrar a CPI, o espanhol acionou um batalhão de advogados para afastar a multinacional do epicentro das investigações. A maior dificuldade foi esclarecer certas cláusulas do contrato de patrocínio, que permitiam à Nike influir no cotidiano da equipe, da convocação e programação de eventos à escolha de adversários em amistosos.
“A CPI desnudou as negociatas de Teixeira à frente da CBF, os desvios de dinheiro, as empresas e contas em paraísos fiscais, mas... nada aconteceu. Em 2001, a comissão encerrou os trabalhos. O relatório não foi votado por influência da Bancada da Bola, e mais uma vez o País cumpriu a tradição de concluir uma CPI sem nenhum resultado prático”, registra o livro.
Com o fim da ameaça, a dupla sentiu-se à vontade para voltar aos negócios. Em dezembro de 2001, Rosell fundou a Brasil 100% Marketing, em sociedade com o financista Cláudio Honigman e o ex-executivo da AmBev Alexandre Barreira Leitão, um dos responsáveis pelo contrato de patrocínio da Seleção Brasileira com as marcas Brahma e Guaraná Antarctica. Formalmente, Teixeira estava de fora, mas o rastro dos negócios da turma indica o oposto.
Embora a atuação da Brasil 100% ficasse nas sombras das negociatas da CBF, um episódio ocorrido pouco antes da Copa da Alemanha em 2006 revelou a verdadeira natureza do negócio. Meinolf Sprink, então diretor de esportes da Bayer AG, proprietária do Bayer Leverkusen, denunciou ter sido vítima de uma tentativa de extorsão do grupo. Em entrevista à rádio alemã ABK, Sprink afirmou ter sido sondado por e-mail por um executivo da Brasil 100%. Em nome da CBF, a empresa queria saber quanto o Bayern estava disposto a pagar para a Seleção utilizar o centro de treinamentos do clube durante a Copa.
A revelação mais surpreendente sobre o modus operandi do grupo foi feita, porém, pelos autores do livro. Ao vasculhar os papéis do 3º e 5º cartórios de Títulos e Documentos do Rio de Janeiro, a equipe descobriu uma série de operações financeiras entre Teixeira, Rosell e Honigman. As transações movimentaram mais de 45 milhões de reais em promessas de compra e venda de ações da Alpes, corretora atuante na Bovespa. A Alpes sugere que as operações eram fraudulentas. Em nota aos autores do livro, a corretora esclareceu que Honigman não poderia ter feito as transações por nunca ter sido acionista da empresa ou ter poderes para tanto. “Ao que tudo indica, as transações eram de fachada, feitas para lavar dinheiro”, diz Ribeiro Jr. Embora ativa na Receita Federal, com dívidas tributárias de 700 mil reais, a Brasil 100% não funciona mais. Honigman deixou o País em 2008. Atualmente é investigado pela Polícia Federal por associação com o doleiro Alberto Youssef.
Com a desativação da Brasil 100%, Teixeira e Rosell retomaram a parceria na nova empresa do espanhol, a Ailanto Marketing. A empresa foi criada em maio de 2008 por Eduardo Duarte e Simone Burk Silva com um capital social de apenas 800 reais. Dono de uma consultoria de regularização de firmas, Duarte foi um dos investigados pela PF na Operação Alquimia, de 2011, que apurou o uso de empresas fantasmas para a sonegação fiscal.
Em 2 de julho de 2008, Rosell e sua secretária, Vanessa Precht, assumiram a Ailanto. Em menos de dois meses, o capital da empresa passou de 800 para 12,8 milhões de reais. Igualmente em tempo recorde assinaria seu primeiro grande contrato, a organização do amistoso da Seleção Brasileira em novembro de 2008. O jogo marcou a inauguração do Bezerrão, o novo estádio do Gama, no Distrito Federal. E garantiu um faturamento de 9 milhões de reais à recém-nascida empresa. O então governador, José Roberto Arruda, se dispôs a bancar a gastança com dinheiro público, sem licitação.
O contrato deveria ser firmado com a ISE, empresa árabe detentora dos direitos de comercialização de amistosos da Seleção. Mas a companhia cedeu os direitos à espanhola BSM, que, por sua vez, indicou a Ailanto. Detalhe: o documento da BSM tem a assinatura de Rosell. A empresa sediada em Barcelona também pertencia ao parceiro de Teixeira.
O procurador Marcos Souza e Silva cobrou, porém, o detalhamento dos gastos, bem como um laudo de capacidade técnica da Ailanto. A manobra usada por Rosell para despistá-lo, destaca o livro, é uma aula de malandragem. A Ailanto encaminhou ao procurador uma carta de aptidão expedida pela BSM, com a assinatura de Marta Rodriguez, à época esposa de Rosell. A declaração diz que a Ailanto organizara grandes eventos, entre eles o Campeonato Mundial de Esqui de Sierra Nevada, em 1996. Como seria possível se a empresa tinha seis meses de vida?
O superfaturamento foi comprovado após uma investigação requisitada pelo promotor Albertino Netto. Segundo a Polícia Civil, a Ailanto declarou, entre outras, ter gastado 900 mil reais com passagens aéreas para a Seleção, mas o valor foi de 617,7 mil. As diárias de hotéis tinham sobrepreço de 44%. Além disso, a Ailanto ficou com a receita da bilheteria, 1,3 milhão de reais, apesar de o poder público ter custeado todas as despesas.
Em junho de 2011, outra revelação da equipe da Record. No 1º Ofício de Registro de Títulos e Documentos do Rio, os jornalistas encontraram o contrato de arrendamento de uma das fazendas do cartola a Vanessa Precht, sócia da Ailanto. Assinado quatro meses após o amistoso, o documento previa o pagamento de 600 mil reais a Teixeira. Mas os funcionários da Fazenda Santa Rosa, em Piraí (RJ), nunca viram um arrendatário nas terras.
As investigações acabaram prejudicadas com a repentina morte do promotor Albertino Netto, vítima de um acidente de carro. Antes de seus colegas concluírem o caso, Teixeira deixou a presidência da CBF e refugiou-se em Boca Ratón, Flórida, em março de 2012.
Meses antes, Rosell ainda desfrutava das benesses da amizade com o presidente da CBF. Pegou carona no ônibus que levou os jogadores do Brasil ao estádio Ciudad de La Plata para uma partida pela Copa América, em 3 de julho de 2011. E ficou hospedado no mesmo hotel dos atletas, entre eles Neymar, com quem conversou longamente pelos corredores do hotel. Começaria ali a negociação de transferência do brasileiro para o Barcelona, sustenta o livro. O acordo entre Rosell e Neymar foi assinado poucos meses depois, mas ficou na gaveta por um bom tempo. Somente em maio de 2013 o time catalão anunciou a contratação do atacante, por 35 milhões de euros.
Não tardou para um sócio do clube, Jordi Cases, perceber um desvio de 40 milhões de euros na transação. Em janeiro de 2014, o jornal espanhol El Mundo colocaria mais lenha na fogueira, ao afirmar que o valor total seria de 95 milhões de euros, uma das contratações mais caras da história do futebol. Rosell foi forçado a admitir que o jogador tinha custado mais, 57 milhões. E renunciou à presidência do Barça.
Quando o amigo brasileiro caíra em desgraça, o espanhol não negou apoio. Seis meses após Teixeira deixar o Brasil, a Ailanto de Rosell comprou a participação da esposa do cartola em duas salas comerciais por 2,8 milhões de reais. Em junho de 2012, novo ato de caridade: depositou 3,8 milhões de reais na conta da filha de 11 anos de Ricardo Teixeira. A revelação foi do jornalista Juca Kfouri: “A impunidade é chocante. Teixeira teve tempo de transferir suas propriedades para parentes e fugir do País”.
O superfaturado amistoso da Seleção não era a única preocupação do cartola, embora não possa ser subestimado. “Ao assumir a CBF, em 1989, ele abdicou das receitas da Loteria Esportiva. Foi uma jogada de mestre. Como não administrava dinheiro público, não tinha de prestar contas aos órgãos de fiscalização”, comenta Azenha. “Mas o amistoso foi custeado pelos cofres públicos. Desta vez, ele poderia não se safar.”
Teixeira e Havelange estavam enredados em graves denúncias de corrupção na Fifa desde 2010. A rede britânica BBC revelou como a dupla recebeu propina da ISL. A empresa pertencia a Horst Dassler, dono da Adidas, antigo parceiro de Havelange, que ensinou o brasileiro a lucrar com os milionários pacotes de patrocínio e repartir as “comissões” entre dirigentes esportivos. O caso despertou a atenção do promotor suíço Thomas Hildebrand, que conseguiu furar o bloqueio de diferentes paraísos fiscais e perfazer o caminho da propina.
De 1992 a 1997, a ISL fez transferências totais de 9,5 milhões de dólares à Sanud, empresa sediada em Liechtenstein e sócia, no Brasil, da RLJ Participações, de propriedade de Teixeira e sua primeira esposa, Lúcia Havelange. O promotor suíço descobriu que a Sanud pertencia a Teixeira, fato que o cartola negou durante a CPI da Nike. A partir de 1998, os repasses da ISL passaram a ser feitos para outra empresa, a Rendfort, também controlada pelo ex-presidente da CBF. Os depósitos na conta da empresa somaram 21,9 milhões de francos suíços (perto de 61 milhões de reais).
Curiosamente, todo o processo foi desencadeado pela própria Fifa, ao cobrar da massa falida da ISL o repasse de um valor pago pela TV Globo pelos direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006. Em dificuldade financeira, a ISL concedeu um desconto à emissora brasileira na antecipação de uma parcela de 66 milhões de dólares. Mas a ISL quebrou em maio de 2001 sem nunca ter feito o repasse devido à Fifa. Blatter cobrou o débito na Justiça e colaborou para a fritura de Havelange. Executivos ligados à extinta ISL não hesitaram em vazar informações sobre o esquema.
Hildebrand teve o cuidado de informar às autoridades do Brasil os passos da investigação. Foi assim, sustentam os autores do livro, que a Receita Federal identificou a sonegação da TV Globo. Por meio da Globo Overseas, a família Marinho investiu nas Ilhas Virgens britânicas para formar outra empresa, a Empire. Um ano depois, ela seria dissolvida e, com seu capital, a Globo compraria o pacote da Fifa. Para o Fisco, tratou-se de uma manobra ilegal. A emissora foi condenada a ressarcir os cofres públicos 615 milhões de reais, valor do imposto mais multa. “Estranho é a Polícia Federal não ter sido acionada para investigar a eventual prática de lavagem de dinheiro”, comenta Ribeiro Jr.
Para evitar uma condenação na Suíça, os cartolas brasileiros fecharam um acordo e devolveram parte da propina. Teixeira desembolsou 2,5 milhões de francos suíços. Havelange, por sua vez, pagou 500 mil francos suíços. A punição parece branda, mas pela primeira vez a dupla viu-se obrigada a responder por seus atos na Justiça.
No Brasil, a impunidade continua. No episódio do amistoso da Seleção, a Justiça condenou o ex-governador Arruda e seu secretário de Esportes, Aguinaldo de Oliveira, por improbidade administrativa. A Ailanto de Sandro Rosell foi absolvida. Outro processo criminal, aberto em 2013, apura os crimes de falsidade ideológica e dispensa ilegal de licitação. Rosell e Arruda são réus, mas o ex-presidente da CBF está de fora.
Como o livro destaca, “não fosse o tribunal suíço, Teixeira talvez ainda reinasse absoluto no futebol brasileiro”. Faz sentido.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/800/os-reis-da-maracutaia-4453.html