Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Falsa questão: a grande mídia e a ignorância com a educação?

Mais uma vez enfrentamos a inconsisitência e a falta de cuidado (para não chamar de outra coisa) a forma como a mídia trata a educação brasileira ao tentar analisar conteúdos escolares sem o devido conhecimento.

Perdoem-me os jornalistas, mas definitivamente no Brasil não é preciso mesmo ter curso superior frente a falta de cuidado como são tratadas as informações. Ensinar o óbvio torna-se cada vez mais necessário!

Falsa questão
Posted By Lívia Perozim On 20 de maio de 2011 @ 15:25 In Carta na Escola |

Mais uma vez um livro didático foi alvo de polêmica. Uma notícia divulgada pelo portal IG, por meio do blog Poder On Line, afirmou: o MEC comprou e distribuiu um livro que “ensina a falar errado”. Em jornais, emissoras de tevê e meios eletrônicos o livro, seus autores e o próprio MEC foram crucificados. Colunistas renomados esbravejaram. É um livro “criminoso”, atestou Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo. Dora Kramer, no Estadão de terça-feira, aproveitou para atacar Lula: “Tal deformação tem origem na plena aceitação do uso impróprio do idioma por parte do ex-presidente Lula, cujos erros de português se tornaram inimputáveis, por supostamente simbolizarem a mobilidade social brasileira.” Poderíamos nos perguntar o que Glorinha Kalil pensa do assunto, mas vamos nos ater aos fatos.

O livro em questão é o Por Uma Vida Melhor e faz parte da coleção Viver, Aprender, organizada pela Ação Educativa, uma ONG que há 16 anos promove debates e atua em projeto de melhoria educação e políticas para a juventude. Foi distribuído para 4.236 escolas e é destinado, frise, para alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) – mais para frente ficará claro o porquê. Seus autores são Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto. Os três, professores de língua portuguesa, autores de livros didáticos e estudiosos do tema variação linguística.

A polêmica midiática partiu da reprodução de trechos como: “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Reproduzidos assim, descolados de um contexto, parece mesmo que a orientação era mandar às favas a língua portuguesa. Mas não é bem isso. Faltou uma leitura mais atenta, ou, pior, faltou ler a obra. O capítulo em questão, ao menos (clique aqui para ler [2]).

Tanto é que foram repercutidas as mesmas poucas frases, retiradas de 1 dos 16 capítulos do livro. Embora o título seja auto-explicativo, Escrever é diferente de falar, vale reproduzir a proposta descrita na introdução: “Neste capítulo, vamos exercitar algumas características da linguagem escrita. Além disso, vamos estudar uma variedade da língua portuguesa: a norma culta. Para entender o que ela é e a sua importância, é preciso conhecer alguns conceitos.” Os trechos pescados pela imprensa estavam no tópico: “A concordância das palavras”. Ali, discute-se a existência de variedades do português falado que admitem que o primeiro termo de um grupo nominal indique se a frase é singular ou plural. O exemplo: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.” Em seguida, reescreve-se a frase na norma culta: “Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados”.

Ou seja, os autores do livro mostram aos alunos do EJA, adultos que já carregam uma bagagem cultural construída pela vivência e por suas experiências educativas, que este modo de falar é correto linguisticamente, por se fazer comunicar, mas não é aceito gramaticalmente. Explica-se: a linguística é uma ciência em busca de conhecimentos sobre a língua. A gramática não é cientifica, é um conjunto de normas. É, portanto, uma parte importante, mas não representa todo o saber da língua.

A confusão está, em parte, no fato de se pretender apartar a teoria linguística do ensino da língua, como se a escola devesse parar no tempo e não deixar entrar nenhum avanço científico relativo à língua materna. “Isso sim é uma irresponsabilidade, um crime”, devolve Cláudio Bazzoni, um dos autores do livro.

Não se fala aqui de uma ciência inventada ontem. Com base em estudos antigos, os linguistas mostram que a língua é um sistema complexo, muito maior do que um conjunto de normas, que muda pela história e é determinada por práticas sociais. Sírio Possenti, professor do departamento de lingüística da Unicamp, explica: “Para um linguista, o conceito de certo e errado não tem sentido. Seria como um botânico achar que uma planta está errada. Para ele, a questão é quais são as regras em cada caso”. Posto que as noções de certo e errado têm origem na sociedade, não na estrutura da língua, ele completa: “É certo o que uma comunidade considera certo. E essa avaliação muda historicamente. Um exemplo: a passiva antiga do português se fazia com de: ‘será de mim mui bem servida’. Está na Carta de Caminha. Hoje, se faz com por.”

A sociedade, no caso, os jornalistas – até mais que os normatistas – condenaram um tipo de conteúdo, a variação linguística, que faz parte há mais de quinze anos dos livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado, avaliados e aprovados pelo MEC. Estão, portanto, mal informados. Como ressalta o professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno, em artigo publicado no site de Carta Capital: “Nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua… Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento”.

Pelo visto, nem tudo que parece é óbvio. Possenti resume bem o imbróglio: “Bastaria que se aceitasse que as línguas não são uniformes, o que é um fato notório, bastaria as pessoas se ouvirem”.  Fica aí a dica para quem, como o jornalista Alexandre Garcia, em comentário irado sobre o livro que “ensina a falar errado”, começou a frase com “Quando eu TAVA na escola”…


terça-feira, 3 de maio de 2011

Bin Laden morreu? Muitas dúvidas....

 A possível morto de Bin Laden, inimigo número 1 dos EUA desde 2001, foi a notícia desta semana nos meios de comunicação mundial. A pergunta é: esta morto mesmo? Será que quase uma década depois, alguns bilhões de dólares, finalmente a "caçada" terminou? 

Sinceramente, pela forma como se desencadeou o processo, tenho sérias dúvidas da realidade da informação. Parece muito mais uma jogada de marketing geopolítico para Barack Obama, especialmente na política interna. 

O artigo abaixo é muito rico nas interpretações e contextos, escrita por um jonralista que teve a oportunidade de conversar com Bin Laden. 

Fica dúvida e a história nos dirá em um futuro bem próximo ou distante, a efetividade desta informação....

 "Bin Laden foi traído? Certamente que sim. O Paquistão sabia onde ele estava"

A desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Durante meses, o presidente Alí Zardari nos disse que Osama vivia em uma caverna no Afeganistão. E agora descobrimos que ele vivia em uma mansão no Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Pelos militares ou pelos serviços de inteligência do Paquistão? É muito provável que pelos dois. O Paquistão sabia onde estava. Há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam ter capturado Bin Laden? 

O artigo é de Robert Fisk - La Jornada

Um dom nada de meia idade, um fracassado político, rebaixado pela história – pelos milhões de árabes que exigem liberdade e democracia no Oriente Médio -, morreu no Paquistão neste domingo. E o mundo enlouqueceu. Nem bem havia nos apresentado uma cópia de sua certidão de nascimento, o presidente estadunidense apareceu no meio da noite para nos oferecer ao vivo um atestado da morte de Osama Bin Laden, abatido em uma cidade batizada em homenagem a um major do exército do velho império britânico. Um só tiro na cabeça, nos dizem. Mas e o vôo secreto do corpo até o Afeganistão e o igualmente secreto sepultamento no mar?

A estranha forma pela qual se livraram do corpo – nada de santuários, por favor – foi quase tão grotesca como o homem e sua perversa organização.
Os estadunidenses estavam embriagados de alegria. David Cameron chamou-o de um enorme passo adiante. A Índia falou em feito vitorioso. Um triunfo retumbante, alardeou o primeiro ministro israelense Netanyahu. Mas, após 3 mil estadunidenses assassinados no 11 de setembro, incontáveis outros no Oriente Médio, cerca de meio milhão de vítimas mortais no Iraque e no Afeganistão e 10 anos empenhados na busca de Bin Laden, oremos para que não tenhamos mais triunfos retumbantes.

Ataques em represália? Talvez ocorram, de pequenos grupos no Ocidente que não têm contato direto com a Al Qaeda. Ninguém duvide que alguém já esteja sonhando com uma brigada do mártir Osama Bin Laden. Talvez no Afeganistão, entre os talibãs. Mas as revoluções de massas dos últimos quatro meses no mundo árabe significam que a Al Qaeda já estava politicamente morta. Bin Laden disse ao mundo – e, de fato, me disse pessoalmente – que queria destruir os regimes pró-ocidentais no mundo árabe, as ditaduras dos Mubaraks e dos Ben Alis. Queria criar um novo califado islâmico. Mas nestes últimos meses, milhões de árabes muçulmanos se levantaram, dispostos ao martírio, mas não pelo Islã e sim por democracia e liberdade. Bin Laden não derrubou os tiranos: foi o povo. E o povo não quer um califa.

Reuni-me três vezes com o homem e só me restou uma pergunta por fazer: o que pensava ao observar como se desenvolviam as revoluções este ano, sob as bandeiras de nações, mais que do islã, cristãos e muçulmanos juntos, pessoas que seus homens da Al Qaeda gostam de arrebentar?

Aos seus olhos, seu êxito foi criar a Al Qaeda, instituição que não tinha carteira de membro. Bastava levantar uma manhã querendo ser da Al Qaeda e já o era. Ele foi o fundador, mas nunca um guerreiro em batalha. Não havia um computador em sua caverna, nem fazia chamadas para que detonassem bombas. Enquanto os ditadores árabes governavam sem que ninguém os enfrentasse, com apoio ocidental, evitavam até onde fosse possível criticar a política de Washington; só Bin Laden o fazia. Os árabes nunca quiseram explodir aviões de altos edifícios, mas admiravam o homem que dizia o que eles queriam dizer. Mas agora, cada vez mais, podem dizê-lo. Não precisam de Bin Laden. Ele se tornou um dom nada.

Falando de cavernas, a desaparição de Bin Laden lança uma luz sombria sobre o Paquistão. Durante meses, o presidente Alí Zardari nos disse que Osama vivia em uma caverna no Afeganistão. E agora descobrimos que ele vivia em uma mansão no Paquistão. Foi traído? Claro que sim. Pelos militares ou pelos serviços de inteligência do Paquistão? É muito provável que pelos dois. O Paquistão sabia onde estava.

Abbottabad não é só o lugar que abriga o colégio militar desse país – a cidade foi fundada pelo major James Abbott, do exército britânico, em 1853 -, como também é o quartel da segunda divisão do corpo do exército do norte. Há apenas um ano, fui atrás de uma entrevista com um dos criminosos mais procurados, o líder do grupo responsável pelos massacres de Bombaim. Encontrei-o na cidade paquistanesa de Lahore, protegido por policiais paquistaneses armados com metralhadoras.

Desde logo, há uma pergunta muito óbvia sem resposta: as forças de segurança do Paquistão não poderiam ter capturado Bin Laden? Por acaso a CIA e os Seals da Marinha dos EUA, ou as forças especiais, ou qualquer que seja a força estadunidense que o tenha morto não tinha os meios para lançar uma rede no tigre. Justiça: foi assim que Barack Obama definiu essa morte. Nos velhos tempos, Justiça significada devido processo legal, um tribunal, uma audiência, um defensor, um julgamento. Como os filhos de Saddam Hussein, Bin Laden foi morto a tiros. Claro, ele jamais quis que o pegassem vivo...e havia sangue em abundância na casa onde morreu.

Mas um tribunal teria preocupado muito mais a outras pessoas do que a Bin Laden. Afinal, depois de tudo o que aconteceu, poderia ter falado de seus contatos com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão, ou de suas acolhedoras reuniões em Islamabad com o príncipe Turki, chefe da Inteligência da Arábia Saudita. Assim como Saddam Hussein – que foi julgado pelo assassinato de apenas 153 pessoas e não pelos milhares de kurdos vítimas de bombas químicas – foi enforcado antes que tivesse a oportunidade de nos contar sobre os componentes do gás fornecidos pelos EUA, sobre sua amizade com Donald Rumsfeld ou sobre a ajuda militar que recebeu de Washington quando invadiu o Irã, em 1980.

É estranho que Bin Laden não tenha sido o criminoso mais procurado pelos crimes internacionais de lesa humanidade do 11 de setembro de 2001. Ele ganhou seu status do velho oeste por ataques anteriores da Al Qaeda a embaixadas dos EUA na África e ao quartel do exército desse país, em Durban. Sempre estava à espera dos mísseis de cruzeiro...e eu também quando me reuni com ele. Ele esperava a morte antes, nas cavernas de Tora Bora, em 2001, quando seus guarda costas não o deixaram resistir e o obrigaram a cruzar as montanhas a pé até o Paquistão. Seguramente passou algum tempo em Karachi. Estava obcecado com essa cidade: até me deu fotografias de grafites apoiando a sua causa nos muros da antiga capital paquistanesa, e elogiava os imãs locais.

Suas relações com outros muçulmanos eram um mistério. Quando me reuni com ele no Afeganistão, no início ele tinha medo do talibã e não deixou que eu deixasse seu acampamento e fosse para Jalalabad à noite. E me entregou a seus guardas mais próximos da Al Qaeda para que me protegessem na viagem no dia seguinte. Seus seguidores odiavam os muçulmanos xiitas, considerando-os hereges. Para eles todos eram ditadores e infiéis, ainda que Bin Laden estivesse disposto a cooperar com os ex-baazistas iraquianos (aliados de Saddam Hussein) contra os ocupantes estadunidenses, o que afirmou em uma gravação de áudio a qual a CIA, tipicamente, não deu importância. Nunca elogiou o Hamas e dificilmente seria digno da definição de “guerreiro sagrado” que esse grupo dedicou a ela, o que foi parar, como de hábito, diretamente nas mãos israelenses.

Nos anos posteriores a 2001, tive uma débil comunicação indireta com Bin Laden. Certa vez, reuni-me com um dos sócios no qual confiava na Al Qaeda, em uma localidade secreta do Paquistão. Escrevi uma lista de 12 perguntas, a primeira das quais era óbvia: que tipo de vitória a Al Qaeda pode proclamar, uma vez que suas ações conduziram à ocupação de nações muçulmanas por Washington? Durante semanas não houve resposta. De repente, em um fim de semana, quando esperava para dar uma conferência em San Louis, Missouri, nos EUA, me disseram que a Al Jazeera acabava de difundir uma nova gravação de Bin Laden. E ele respondeu – sem fazer menção a minha lista – uma a uma minhas 12 perguntas. Ele queria que os estadunidenses fossem ao mundo muçulmano...para poder destruí-los.

Quando Daniel Pearl, jornalista do Wall Street Journal, foi sequestrado, escrevi um longo artigo no The Independent, no qual suplicava a Bin Laden para que salvasse a sua vida. Pearl e sua esposa cuidaram de mim quando fui golpeado na fronteira afegã, em 2001; ele inclusive me deu o conteúdo de seu livro de contatos. Muito tempo depois me disseram que Bin Laden tinha lido meu artigo com tristeza. Mas Pearl já havia sido assassinado. Ou pelo menos foi isso que ele teria dito.

As obsessões de Bin Laden infestaram a sua família. Uma esposa deixou-o, outras duas parecem ter morrido com ele no ataque estadunidense do domingo. Conheci um de seus filhos, Omar, no Afeganistão, em 1994; estava com seu pai. Era um menino simpático e perguntei se ele era feliz. Sim, me respondeu ele em inglês. Mas no ano passado ele publicou um livro chamado “Living Bin Laden”, no qual, ao descrever como seu pai matou os cães que ele amava em um experimento de guerra química, chamou-o de homem malvado. Neste livro, também recordou nosso encontro e concluiu que devia ter respondido que não era uma criança feliz.

Ao meio dia desta segunda-feira eu já tinha recebido três chamadas telefônicas de árabes, todos seguros de que os estadunidenses mataram um dublê de Bin Laden, do mesmo modo que muitos iraquianos acreditam que os filhos de Saddam Hussein não morreram em 2003 e que o próprio Saddam tampouco foi enforcado. No seu devido tempo, a Al Qaeda nos dirá. Certamente, se todos estamos equivocados e era um dublê, veremos mais um vídeo do verdadeiro Bin Laden...e o presidente Obama perderá a próxima eleição.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17754

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O perigo de Chernobyl - 25 anos depois

Este final de abril de 2011 marca os 25 anos do acidente nuclear na Usina de Chernobyl, na região da atual Ucrânia. Os problemas gerados com o terremoto no Japão com os reatores da Usina de Fukushima, reacendem as indagações sobre a demora na reação das autoridades frente a eventos como estes, que embora raros, causam contaminação das áreas afetadas por algumas centenas de anos, no minímo.

O que fazer? Eis uma pergunta que a comunidade internacional precisa encontar uma resposta efetiva, para que a energia nuclear, um mal necessário, como dizem alguns, tenha uma certa estabilidade e segurança.

Relembrar Chernobyl é preciso, como forma de nos atentarmos aos perigos que uso dos átomos podem gerar.


26/4/2011 - 10h28

O perigo de Chernobyl continua vigente


Prípat, Ucrânia, 26/4/2011 – Eram quase seis da manhã do dia 26 de abril de 1986 quando Alexey Breus saiu de seu apartamento rumo ao trabalho, no Reator 4 da usina nuclear de Chernobyl, sem saber que há cinco horas havia começado o histórico desastre nuclear. “Quando cheguei de ônibus vi a destruição. Fiquei arrepiado”, contou à IPS.

Alexey soube que havia ocorrido algo horrível. Até então não se dera conta de sua relativa sorte, 15 operadores e seis bombeiros haviam morrido. “Passei todo o dia correndo na sala de controle tentando retirar água do reator. Senti náuseas, outros vomitaram”, contou.

Às quatro da tarde seu chefe decidiu que os esforços eram inúteis e ordenou que todos abandonassem o recinto. “Fui a última pessoa a apertar botões e interruptores para tentar acertar as coisas”, afirmou Alexey. Quando trocou de roupa notou que sua pele estava meio bronzeada, mas até então desconhecia a gravidade da situação e parou para comprar pão antes de ir para casa.

A explosão do Reator 4 da usina de Chernobyl liberou 200 vezes mais radiação do que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, e deixou quatro mil mortos, 40% do território europeu contaminado e mais de 400 mil desabrigados. O Reator foi enterrado sob uma estrutura de concreto, conhecida como sarcófago, que ainda contém combustível altamente radioativo, e que será substituída por uma nova construção.

A maioria dos trabalhadores da usina e seus familiares residiam em Prípiat, cidade de 50 mil habitantes que, estando a um quilômetro de Chernobyl, teve de ser evacuada de forma permanente. Vinte e cinco anos depois, Alexey regressa em busca da Rua Lênin, onde vivia seu amigo Konstantin Rudya. Ex-engenheiro da usina nuclear, que vivia ali com sua mulher e a filha Alina. A jovem, que agora estuda fotografia em Berlim, regressou com ele a Prípiat, de onde foi evacuada nos braços de sua mãe.

Konstantin morreu há cinco anos de um câncer repentino e implacável na coluna vertebral com características inexplicáveis pelos médicos. No prazo de um mês passou de simples dor nas costas a não poder movimentar o torso que, segundo os que estiveram com ele, fazia um arrepiante ruído de vidro quebrado. A autópsia revelou que parte de sua coluna tinha se transformado em uma esponja calcificada e que desaparecera o resto do osso. “Nesse momento me dei conta do que significa Chernobyl”, disse Alina, que na época estudava em Budapeste.

Prípiat foi lentamente devorada por uma vegetação agressiva e indiferente, com árvores que crescem dentro dos edifícios. O que foi uma cidade futurista com jovens promissores se converteu em um doloroso monumento da extinta era soviética.

Nervosa, Alina procurou pelo apartamento da família. Deixou para traz as portas entreabertas do elevador para subir as escadas de madeira, muito deterioradas após anos de infiltração de água. Teve que entrar em vários antes de encontrar o seu. Não há quase objetos em muitos dos apartamentos. Prípiat perdeu seus tesouros após anos de pilhagens. Alina se deu conta de que estava em sua casa quando, perto de uma janela do quarto andar, viu uma foto sua quando bebê deixada de propósito por seu pai, que morreu aos 47 anos.

Sua mãe, Marina, não quer regressar, mas ainda se lembra dos dias surrealistas que se seguiram ao acidente. Quando Konstantin chegou à sua casa, fechou as janelas e deu iodo a ela e sua filha. Todos sabiam que algo não ia bem, mas as pessoas continuavam nadando no rio. As autoridades interromperam todas as formas de comunicação. Era impossível fazer ligações telefônicas e sair ou chegar à cidade, até que foi anunciado por alto-falantes a evacuação obrigatória. Tinha se passado 36 horas da explosão do Reator 4.

“Alguns amigos fizeram uma pequena mala com roupas para uma semana, nunca imaginei que não voltaríamos”, disse Marina à IPS. Não quero nem pensar no risco que ainda se corre pela exposição a altas doses, potencialmente letais, de radiação. “Os que pensam na morte o tempo todo, morrem primeiro”, acrescentou. As duas devem fazer exames clínicos todos os anos, mas Alina confessa que os evita por medo.

O sofrimento da família Rudya não mudou sua opinião favorável à energia nuclear, que compartilham com a maioria dos ucranianos e o governo, que prevê construir 22 novos reatores até 2030.

No apartamento de Marina em Kiev há muitas fotografias de Konstantin sorrindo dentro da usina nuclear de Chernobyl. Ele recebeu muitas ofertas de trabalho do exterior, mas sempre quis ficar na Ucrânia. Seu trabalho o levou a realizar frequentes incursões no sarcófago mortal. “Nunca pesou em ir embora da Ucrânia, era um patriota, queria ficar em Kiev e por isso continuou trabalhando em Chernobyl”, disse Marina à IPS.

Fonte: http://envolverde.com.br/noticias/o-perigo-de-chernobyl-continua-vigente/

segunda-feira, 28 de março de 2011

A ciência como inspiração

No mundo da ficção científica a ciência muitas vezes é apresentada de forma equivocada nos dias de hoje, como por exemplo, nos filmes espaciais, as explosões que não deveriam gerar som. Mas qual seria a graça de um filme assim? Por isso este gênero, a ficção científica, encanta e proporciona a imaginação de leitores e espectadores, além de desafiar a imaginação e a criatividade dos autores e autoras. Julio Verne é um exemplo de autor que extrapolou os limites do conhecimento de seu tempo, com descrições detalhadas de situações e máquinas muito além de sua época. Vale sempre a pena rever os filmes de décadas atrás (embora nos pareçam infantis e com defeitos, se comparados com a moderna computação gráfica) e ler e reler os livros que deram início a ficção científica!

 

A ciência como inspiração

 

A reportagem de capa da CH deste mês coloca em discussão a ficção científica. Qual foi, qual é e qual será o papel desse gênero da literatura que ganhou força com as adaptações cinematográficas? Teóricos e escritores discutem o tema.

Por: Fred Furtado               Publicado em 21/03/2011 | Atualizado em 25/03/2011

A ciência como inspiração

“It’s alive!” (está vivo, em inglês) é a frase com a qual Victor Frankenstein, ao dar vida ao seu monstro, sedimenta a figura de cientista louco no imaginário popular. Essa cena emblemática está na adaptação cinematográfica de 1931 do romance Frankenstein: ou O moderno Prometeu, da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851).

O livro é considerado a obra fundadora do gênero literário conhecido como ficção científica, que desde sua criação está intrinsecamente ligado à ciência e tecnologia. Mas como é essa relação? A ficção cientifica é uma espécie de profeta, prevendo hoje os avanços de amanhã? Seria uma maneira de discutir os problemas do presente e os desdobramentos da tecnologia na sociedade? Ou é apenas uma literatura que busca inspiração na ciência?

Para entendermos essa relação, temos que analisar as obras de ficção científica dentro de seus contextos. Frankenstein, por exemplo, foi publicado em 1818, quando a Inglaterra já se encontrava na Revolução Industrial e experimentos de galvanismo, como aqueles conduzidos pelo médico italiano Luigi Alyisio Galvani (1737-1798), que usava eletricidade para ativar os membros de animais e humanos mortos, já eram conhecidos. Esses dois elementos foram influências para Shelley na criação de seu romance.
Mary Shelley não era cientista, mas seu livro criou o mito moderno da ciência

“Ela não era cientista, mas seu livro criou o mito moderno da ciência”, afirma a bióloga e teórica da literatura Lúcia Rodriguez de La Rocque, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para La Rocque, que estuda a relação entre ciência e ficção científica, Shelley levantou questões quanto ao desenvolvimento científico e corporificou a reação do público leigo à ciência.

“Embora ela deixasse uma porta aberta para as consequências positivas, ela deu ênfase às negativas. É claro que isso foi, em parte, uma escolha estilística, pois sem conflito, não há história”, observa a bióloga.

Ciência ambivalente


Autor de Frankenstein’s footsteps (algo como ‘Passos de Frankenstein’, ainda não publicado no Brasil), que discute a maneira como as ciências biológicas são divulgadas e sua relação com o livro da autora inglesa, Turney explica que Shelley trata o tema de uma maneira rica e complexa.
“Por um lado, ela percebe as vantagens de uma medicina avançada, como a eliminação da morte prematura e das doenças. Por outro, vê com temeridade a capacidade de controlar a reprodução e redesenhar os seres humanos, atividades que estariam sob controle de criaturas imperfeitas – nós.”

La Rocque complementa: “Ela distingue entre uma ciência boa e uma má. Estudar a natureza seria algo aceitável; tentar manipulá-la, não.”

“Estudar a natureza seria algo aceitável; tentar manipulá-la, não.”
Essa abordagem mudaria com o avanço do gênero -- a ciência e a tecnologia em si seriam neutras; seus usos, por outro lado, poderiam ser moralmente questionáveis. Mas a obra de Shelley foi tão marcante que acabou estabelecendo a base da imagem pública da ciência. “Ela criou o arquétipo do cientista louco, aquele homem frio, cuja obsessão científica o afasta do bem”, relata.

 

Rígida e suave

É na segunda metade do século 19 que surge o que se convenciona chamar de ficção científica, simbolizado pelas obras do inglês Herbert George (H.G.) Wells (1866–1946) e do francês Júlio Verne (1828-1905), considerados os ‘pais’ do gênero.
Aqui já é possível ver a semente do que mais tarde seriam chamados os subgêneros hard (rígido) e soft (suave) dessa literatura. No primeiro, o autor se limita a utilizar na história apenas o que é considerado possível pela ciência da época ou extrapolações plausíveis. Verne seria um exemplo desse estilo. Em 20 mil léguas submarinas, ele dá explicações detalhadas do funcionamento do submarino do capitão Nemo, o Nautilus.
Já na soft, o fato científico pode ser usado como ponto de partida, mas a narrativa não está presa a ele e pode envolver temas das ciências sociais. É o caso de Wells, que abordou a estratificação social da Inglaterra em A máquina do tempo. Diz-se que, quando questionado a respeito da obra do inglês, Verne teria dito que ele mentia.

“Apesar disso, as obras de Wells têm conceitos que poderiam ser considerados revolucionários, como tratar o tempo como uma quarta dimensão, em A máquina do tempo, e a engenharia genética, em A ilha do doutor Moreau”, conta La Rocque.

Outra diferença entre os ‘pais’ da ficção científica era sua abordagem quanto à tecnologia: Verne a via como algo positivo, enquanto nas histórias de Wells as coisas não eram tão felizes assim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Que aprendizado a tragédia do Japão nos proporciona?

O Japão é um país de contrastes entre o moderno e a tradição. Os eventos provocados pelo terremoto deste março de 2011 mostram um lado do Japão muitas vezes pouco lembrado: de uma sociedade organizada, solidária e preparada para as catástrofes que assolam a ilha, pela sua localização geográfica.

Quem acompanhou as impressionantes e destrutivas imagens do tsunami e as do tremor pode ter uma noção dos estragos. O que chamou a atenção é a forma organizada e calma como os japoneses enfrentaram o antes e o depois da tragédia. O texto que segue trás algumas considerações significativas para podermos pensar como nos prepararmos para tais situações. Não podemos frear os fenômenos naturais, mas sim tentar minimizar seus impactos. A tendência é termos mais situações de emergência (alagamentos, tsunamis, tufões....) que afetarão mais seres humanos causados pela crescimento populacional das cidades.
Estarmos preparados, minimamente, é fundamental para salvarmos vidas. Fico imaginando a tragédia e o número de mortos se algo semelhante acontecesse no Brasil....  

Que aprendizado a tragédia do Japão nos proporciona?

Por Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Uma cultura que realça valores como tradição, disciplina e solidariedade ajuda a proteger vidas e a construir uma sociedade sustentável.

Pode a cultura de um povo ajudá-lo a enfrentar tragédias, aprender com elas e superar os problemas? Sim, pode. É o que podemos depreender das sucessivas catástrofes que vêm atingindo o Japão desde a última sexta-feira (11/3).

O Japão, como boa parte do Extremo Oriente, está sujeito a terremotos e tsunâmis. Só para lembrar a história recente, um terremoto de 7,2 graus na escala Richter atingiu a cidade de Kobe, importante centro econômico japonês. Foi o primeiro a atingir maciçamente uma área urbana densamente povoada no país. O abalo durou 20 segundos, destruiu a infraestrutura da cidade, moradias, hospitais e escolas, matando 6.437 pessoas e deixando 222.127 desabrigados, que precisaram se refugiar em locais provisórios por um longo período, até suas casas serem reconstruídas.

A exatidão dos números mostra o cuidado com que o Estado japonês lida com a situação. E como aprende com elas. A tragédia de Kobe passou a fazer parte dos livros escolares e das aulas de todas as matérias curriculares, do ensino fundamental aos cursos universitários. Aos alunos das escolas fundamentais, os professores de cada matéria realçam como se deve reagir quando a terra tremer, onde buscar abrigo, a quem pedir socorro e como ajudar outras pessoas, caso não seja um dos atingidos. A mensagem que se pretende incutir em cada cidadão é a seguinte: não se pode evitar esses eventos naturais, mas é possível reduzir e até zerar as mortes e a destruição.

Essa lição foi assimilada tanto pelo Estado quanto pela sociedade japonesa e, pelos relatos que chegam até nós, vem sendo posta em prática na tragédia atual. Na sexta-feira, um tremor de 8,9 graus na escala Richter – o maior já registrado em 140 anos de medição no país –, com epicentro a 125 km da costa noroeste do Japão, provocou um tsunâmi e deslocou o eixo da Terra em 10 centímetros.

As cidades de Fukushima, Miyaki, Iwate e Ibaraki foram atingidas em cheio pelas ondas de mais de 7 metros e pelos tremores. No entanto, quase 9 milhões de habitantes foram salvos pelas medidas preventivas e pela solidariedade dos habitantes que se prontificaram a receber em suas casas os concidadãos atingidos. Até agora, foram oficialmente contabilizadas 1.627 mortes, mas esse total pode chegar a 5.000. Há 450 mil desabrigados. O terremoto no Haiti, de 7 graus, matou 230 mil pessoas.

O que faz a diferença? Primeiro, instituições confiáveis aos olhos da sociedade. Assim, quando os alertas foram lançados pelos meios de comunicação, a população acreditou. Em segundo lugar, a solidariedade. De imediato, equipamentos públicos foram postos à disposição dos potenciais atingidos. E também as casas particulares de cidadãos desconhecidos, que se ofereceram para dar abrigo.

É de se notar ainda a disciplina e o planejamento. Entre o anúncio do tremor e a formação da primeira onda gigante que varreu Fukushima, passaram-se não mais do que 15 minutos. Esse tempo foi suficiente para a população ser alertada e procurar abrigo em construções de concreto ou em prédios acima de três andares. Moradores desses locais abriram suas portas a desconhecidos. Todos conhecem rotas seguras para chegar aos refúgios, as quais, prevendo-se desastres, são bem sinalizadas.

Todos os veículos de comunicação divulgam as áreas de risco e como evitá-las. E as autoridades também põem à disposição um site e um telefone (que funcionam) para pedidos de ajuda.

Ainda sobre a educação do povo, todos sabem que não podem acender fogo depois dos tremores, para não causar incêndios por causa dos vazamentos de gás, piorando a situação. Daí as notícias que lemos a respeito de pessoas que estão ao relento ou em casas sem eletricidade, num frio próximo a zero grau.

Outro dado interessante: quando o tremor ocorreu, centenas de milhares de pessoas usavam transporte público. Seguindo as orientações já conhecidas desde a escola, ficaram sentadas em seus lugares, esperando ordens de evacuação, sem ansiedade ou quebra-quebra. E, tirando o roubo de algumas centenas de bicicletas – o único meio de transporte na destruição que se verificou –, não houve outras ocorrências, como saques ou violência, a exemplo do que ocorreu durante os recentes terremotos no Haiti e no Chile.

Os desabrigados tampouco se sentem sozinhos. Passado o tremor, começam a distribuição de água, mantimentos e cobertores, e os donativos que chegam são rapidamente distribuídos por um sistema de logística específico.

Outra diferença importante no caso do Japão é a atitude dos políticos, do primeiro-ministro aos representantes municipais. Todos se preocupam em informar a população sobre a real extensão dos eventos e as medidas adotadas, ouvindo ao vivo críticas ou sugestões.

A primeira medida de reconstrução anunciada é o investimento em mais pesquisas tecnológicas para diminuir as perdas humanas e os prejuízos financeiros. A outra é rever as já rígidas normas de ocupação do solo e as regras sobre a qualidade das construções, com o intuito de deslocar as edificações (e as pessoas) para áreas consideradas mais seguras.

Nós, no Brasil, não temos terremotos, felizmente. Mas andamos sofrendo demais com as enchentes. Deveríamos ter a humildade oriental para assimilar o máximo possível dessas lições, a fim de evitar as tragédias anunciadas de todo verão.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/que-aprendizado-a-tragedia-do-japao-nos-proporciona

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O rádio e as mudanças dos sentidos

Para os mais jovens este artigo mostra um pouco das formas de divulgação de noticias e outras "cositas" mais em tempos em que a imagem não valia, ainda, por mil palavras. O rádio e as transmissões sonoras eram a forma que as pessoas tinham de "ver" o mundo nas primeiras décadas do século XX. Mudanças de sentidos com as mudanças das tecnologias.

Um mundo sem televisão e internet, para muitos impossível frente as possibilidades existentes, mas que existe muitos interiores do Brasil ainda que o rádio faz a ponte com as novidades e notícias.  Vivemos numa mesma época, mas em tempos muitos diferentes!

O rei, o discurso e o rádio

Motivada pelo filme ‘O discurso do rei’, que se passa em uma época em que o rádio ocupava papel de destaque na sociedade, Keila Grinberg conta a história desse que foi o maior fenômeno de comunicação da primeira metade do século 20.

Por: Keila Grinberg                               Publicado em 15/02/2011 | Atualizado em Feb 15, 2011

(foto: George W. Ackerman/ Governo Federal dos Estados Unidos)

Que ninguém se engane: o personagem principal de O discurso do rei, um dos filmes favoritos a ganhar várias estatuetas do Oscar de 2011, não é o príncipe Albert Frederick Arthur George (interpretado por Colin Firth, candidato ao prêmio de melhor ator), que assume a contragosto o trono do império britânico e torna-se o rei George VI.

Muito menos o quase excêntrico terapeuta da fala Lionel Logue (interpretado por Geoffrey Rush, também sério candidato a levar a estatueta, na categoria de melhor ator coadjuvante), que tem a tarefa de ajudar o novo rei a superar o nervosismo e a gagueira durante seus discursos.
O grande personagem do filme é o rádio. Afinal, é só porque o príncipe precisa falar em público – e para todo o império britânico – que a necessidade de tratar sua gagueira é tão premente.
Em torno do rádio se passam as principais cenas do filme: da leitura do discurso – depois apropriadamente fotografado, como se ele tivesse sido feito no escritório de trabalho do rei – a sua transmissão e difusão para todo o império britânico.

Em seu primeiro discurso de guerra, por exemplo, proferido em 3 de setembro de 1939, dois dias depois de as tropas alemãs invadirem a Polônia e darem o pontapé inicial para a Segunda Guerra Mundial, George VI disse que queria falar a seus súditos como se estivesse entrando na casa deles.

Ouça abaixo a transmissão original do discurso



E era isso mesmo. Quem quer que falasse no rádio entrava na casa das pessoas, convivia com elas como se de fato as conhecesse. O rádio ocupava o espaço nobre das salas de estar, e o horário das notícias e dos programas transformava a vida das pessoas, pois ditava a própria organização do cotidiano familiar.

A era de ouro

Como bem disse o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-), o rádio “trazia o mundo à sua sala”. Ninguém jantava ouvindo rádio ou conversava ouvindo rádio – e a música que se ouvia jamais era “de fundo”, como hoje em dia. Hoje ouvimos rádio enquanto fazemos alguma outra coisa: dirigimos, cozinhamos, trabalhamos. Mas, na chamada ‘era do rádio’, isso jamais acontecia.
 
Assim como ocorreu com o avião, há quem advogue que o inventor do rádio foi um brasileiro
De fato, o rádio foi o maior fenômeno de comunicação da primeira metade do século 20, e ele ainda continua ocupando lugar de destaque entre os meios de comunicação, embora quem nasceu depois do advento da internet possa duvidar disso. Pois é: a primeira tecnologia wireless (sem fios) não foi criada para os computadores, mas para a propagação de ondas eletromagnéticas, as ‘ondas do rádio’.

Aliás, assim como ocorreu com o avião, há quem advogue que o inventor do rádio foi um brasileiro. Um ano antes de o físico italiano Guglielmo Marconi (1874-1937) se tornar mundialmente conhecido como o inventor do primeiro transmissor de ondas eletromagnéticas, o padre brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928) fez, em 1894, uma demonstração de transmissão de ruídos da avenida Paulista ao alto de Santana, em São Paulo.

Por conta dessa e de outras façanhas, Landell de Moura foi reconhecido em 1904 como o inventor do telégrafo sem fio, do telefone sem fio e do transmissor de ondas sonoras.
Seja como for, a primeira radiodifusão aconteceu mesmo em 1916, em Nova Iorque (Estados Unidos). Com a invenção do microfone, já nos anos 1920, estavam criadas as condições técnicas para que o rádio deixasse de ser um aparelho utilizado apenas para fins militares e ganhasse o mundo.
Para liberar as sobras dos aparelhos fabricados durante a Primeira Guerra Mundial, a companhia norte-americana Westinghouse Electric Co instalou uma grande antena em sua fábrica e começou a transmitir música para seus vizinhos. Daí a começar a vender os aparelhos de rádio encalhados, foi um pulo.

Surgia então o primeiro meio de comunicação digno do título ‘de massa’, responsável pela criação de mais de 300 emissoras nos Estados Unidos no espaço de pouco mais de um ano.

Transmissão radiofônica no Brasil

No Brasil, a primeira transmissão radiofônica oficial foi o discurso do presidente Epitácio Pessoa (1865-1942), para comemorar o centenário da independência do país, em 1922. O discurso foi proferido na Praia Vermelha, mas o transmissor foi instalado no alto do Corcovado, pela mesma Westinghouse Electric Co.

A década de 1930 viu surgir as primeiras grandes rádios brasileiras – como a Rádio Nacional, a Rádio Bandeirantes e a Rádio Globo –, e com elas os programas governamentais, como A Hora do Brasil (hoje Voz do Brasil). No programa, as notícias oficiais eram veiculadas e o presidente Getúlio Vargas (1882-1954) dirigia-se diretamente a cada um dos brasileiros, assim como fez o rei George VI e como já faziam, na mesma época, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt (1881-1945) e o ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945).
Seguindo essa mesma linha de apresentação, em 1941 foi lançado o Repórter Esso, primeiro e mais importante jornal brasileiro transmitido por rádio, que durou até 1968. O bordão “a Segunda Guerra acabou depois que o Repórter Esso noticiou” evidencia bem a dimensão da credibilidade e da importância que o programa tinha no Brasil.
Mas nenhum outro episódio foi tão representativo da importância alcançada pelo rádio como a transmissão da simulação de um ataque marciano aos Estados Unidos feita pelo cineasta norte-americano Orson Welles (1915-1985) em 1938. Era para ser apenas uma peça de audioteatro, mas a transmissão pela Rádio CBS do drama na véspera do dia das bruxas deu à peça ares de realidade.

Welles adaptou o livro A Guerra dos Mundos, lançado em 1898 pelo escritor britânico H.G. Wells (1866-1946), para a linguagem radiofônica, como se fosse uma cobertura jornalística verdadeira (ouça a versão original em inglês).

O resultado foi quase inacreditável: em pânico, muitas pessoas acreditaram que os marcianos tinham mesmo invadido os Estados Unidos. Orson Welles passou o resto da vida tendo que se defender das acusações de ter deliberadamente espalhado terror pelo rádio.

Quem dera o rei George VI também pudesse ter sido acusado de pregar uma peça na população por ter anunciado, em 1939, que “dias terríveis” estavam a caminho.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

EUA seguem o seu velho e surrado manual com os protestos no Egito

A situação de protestos no Egito entrou o mês de fevereiro a dentro e pelo que percebe-se não irá retroceder até as mudanças acontecerem. Com certeza é uma revolução que se desenrola na país e na região.

Como muita coisa circula pelas mídias, com as mais diferentes versões e opiniões, esta entrevista com o professor Noam Chomsky, critico ferrenho das políticas estadunidenses, trás a tona o mais do mesmo, ou seja, mostra como não há mudança na forma como os EUA encaram e tentam manter seu domínio no mundo.


Chomsky: EUA estão seguindo seu manual no Egito

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, Noam Chomsky analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles.

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Yemen de abandonar o cargo ao final de seu mandato.

O Democracy Now falou com o professor do MIT, Noam Chomsky, acerca do que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”.

Amy Goodman: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?

Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Amy Goodman: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?

Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos tem um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses. Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Amy Goodman: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?

Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

Amy Goodman: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?

Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.

Amy Goodman: O que acontecerá com a Jordânia?

Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.

Tradução: Katarina Peixoto