Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

O perigo de Chernobyl - 25 anos depois

Este final de abril de 2011 marca os 25 anos do acidente nuclear na Usina de Chernobyl, na região da atual Ucrânia. Os problemas gerados com o terremoto no Japão com os reatores da Usina de Fukushima, reacendem as indagações sobre a demora na reação das autoridades frente a eventos como estes, que embora raros, causam contaminação das áreas afetadas por algumas centenas de anos, no minímo.

O que fazer? Eis uma pergunta que a comunidade internacional precisa encontar uma resposta efetiva, para que a energia nuclear, um mal necessário, como dizem alguns, tenha uma certa estabilidade e segurança.

Relembrar Chernobyl é preciso, como forma de nos atentarmos aos perigos que uso dos átomos podem gerar.


26/4/2011 - 10h28

O perigo de Chernobyl continua vigente


Prípat, Ucrânia, 26/4/2011 – Eram quase seis da manhã do dia 26 de abril de 1986 quando Alexey Breus saiu de seu apartamento rumo ao trabalho, no Reator 4 da usina nuclear de Chernobyl, sem saber que há cinco horas havia começado o histórico desastre nuclear. “Quando cheguei de ônibus vi a destruição. Fiquei arrepiado”, contou à IPS.

Alexey soube que havia ocorrido algo horrível. Até então não se dera conta de sua relativa sorte, 15 operadores e seis bombeiros haviam morrido. “Passei todo o dia correndo na sala de controle tentando retirar água do reator. Senti náuseas, outros vomitaram”, contou.

Às quatro da tarde seu chefe decidiu que os esforços eram inúteis e ordenou que todos abandonassem o recinto. “Fui a última pessoa a apertar botões e interruptores para tentar acertar as coisas”, afirmou Alexey. Quando trocou de roupa notou que sua pele estava meio bronzeada, mas até então desconhecia a gravidade da situação e parou para comprar pão antes de ir para casa.

A explosão do Reator 4 da usina de Chernobyl liberou 200 vezes mais radiação do que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, e deixou quatro mil mortos, 40% do território europeu contaminado e mais de 400 mil desabrigados. O Reator foi enterrado sob uma estrutura de concreto, conhecida como sarcófago, que ainda contém combustível altamente radioativo, e que será substituída por uma nova construção.

A maioria dos trabalhadores da usina e seus familiares residiam em Prípiat, cidade de 50 mil habitantes que, estando a um quilômetro de Chernobyl, teve de ser evacuada de forma permanente. Vinte e cinco anos depois, Alexey regressa em busca da Rua Lênin, onde vivia seu amigo Konstantin Rudya. Ex-engenheiro da usina nuclear, que vivia ali com sua mulher e a filha Alina. A jovem, que agora estuda fotografia em Berlim, regressou com ele a Prípiat, de onde foi evacuada nos braços de sua mãe.

Konstantin morreu há cinco anos de um câncer repentino e implacável na coluna vertebral com características inexplicáveis pelos médicos. No prazo de um mês passou de simples dor nas costas a não poder movimentar o torso que, segundo os que estiveram com ele, fazia um arrepiante ruído de vidro quebrado. A autópsia revelou que parte de sua coluna tinha se transformado em uma esponja calcificada e que desaparecera o resto do osso. “Nesse momento me dei conta do que significa Chernobyl”, disse Alina, que na época estudava em Budapeste.

Prípiat foi lentamente devorada por uma vegetação agressiva e indiferente, com árvores que crescem dentro dos edifícios. O que foi uma cidade futurista com jovens promissores se converteu em um doloroso monumento da extinta era soviética.

Nervosa, Alina procurou pelo apartamento da família. Deixou para traz as portas entreabertas do elevador para subir as escadas de madeira, muito deterioradas após anos de infiltração de água. Teve que entrar em vários antes de encontrar o seu. Não há quase objetos em muitos dos apartamentos. Prípiat perdeu seus tesouros após anos de pilhagens. Alina se deu conta de que estava em sua casa quando, perto de uma janela do quarto andar, viu uma foto sua quando bebê deixada de propósito por seu pai, que morreu aos 47 anos.

Sua mãe, Marina, não quer regressar, mas ainda se lembra dos dias surrealistas que se seguiram ao acidente. Quando Konstantin chegou à sua casa, fechou as janelas e deu iodo a ela e sua filha. Todos sabiam que algo não ia bem, mas as pessoas continuavam nadando no rio. As autoridades interromperam todas as formas de comunicação. Era impossível fazer ligações telefônicas e sair ou chegar à cidade, até que foi anunciado por alto-falantes a evacuação obrigatória. Tinha se passado 36 horas da explosão do Reator 4.

“Alguns amigos fizeram uma pequena mala com roupas para uma semana, nunca imaginei que não voltaríamos”, disse Marina à IPS. Não quero nem pensar no risco que ainda se corre pela exposição a altas doses, potencialmente letais, de radiação. “Os que pensam na morte o tempo todo, morrem primeiro”, acrescentou. As duas devem fazer exames clínicos todos os anos, mas Alina confessa que os evita por medo.

O sofrimento da família Rudya não mudou sua opinião favorável à energia nuclear, que compartilham com a maioria dos ucranianos e o governo, que prevê construir 22 novos reatores até 2030.

No apartamento de Marina em Kiev há muitas fotografias de Konstantin sorrindo dentro da usina nuclear de Chernobyl. Ele recebeu muitas ofertas de trabalho do exterior, mas sempre quis ficar na Ucrânia. Seu trabalho o levou a realizar frequentes incursões no sarcófago mortal. “Nunca pesou em ir embora da Ucrânia, era um patriota, queria ficar em Kiev e por isso continuou trabalhando em Chernobyl”, disse Marina à IPS.

Fonte: http://envolverde.com.br/noticias/o-perigo-de-chernobyl-continua-vigente/

segunda-feira, 28 de março de 2011

A ciência como inspiração

No mundo da ficção científica a ciência muitas vezes é apresentada de forma equivocada nos dias de hoje, como por exemplo, nos filmes espaciais, as explosões que não deveriam gerar som. Mas qual seria a graça de um filme assim? Por isso este gênero, a ficção científica, encanta e proporciona a imaginação de leitores e espectadores, além de desafiar a imaginação e a criatividade dos autores e autoras. Julio Verne é um exemplo de autor que extrapolou os limites do conhecimento de seu tempo, com descrições detalhadas de situações e máquinas muito além de sua época. Vale sempre a pena rever os filmes de décadas atrás (embora nos pareçam infantis e com defeitos, se comparados com a moderna computação gráfica) e ler e reler os livros que deram início a ficção científica!

 

A ciência como inspiração

 

A reportagem de capa da CH deste mês coloca em discussão a ficção científica. Qual foi, qual é e qual será o papel desse gênero da literatura que ganhou força com as adaptações cinematográficas? Teóricos e escritores discutem o tema.

Por: Fred Furtado               Publicado em 21/03/2011 | Atualizado em 25/03/2011

A ciência como inspiração

“It’s alive!” (está vivo, em inglês) é a frase com a qual Victor Frankenstein, ao dar vida ao seu monstro, sedimenta a figura de cientista louco no imaginário popular. Essa cena emblemática está na adaptação cinematográfica de 1931 do romance Frankenstein: ou O moderno Prometeu, da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851).

O livro é considerado a obra fundadora do gênero literário conhecido como ficção científica, que desde sua criação está intrinsecamente ligado à ciência e tecnologia. Mas como é essa relação? A ficção cientifica é uma espécie de profeta, prevendo hoje os avanços de amanhã? Seria uma maneira de discutir os problemas do presente e os desdobramentos da tecnologia na sociedade? Ou é apenas uma literatura que busca inspiração na ciência?

Para entendermos essa relação, temos que analisar as obras de ficção científica dentro de seus contextos. Frankenstein, por exemplo, foi publicado em 1818, quando a Inglaterra já se encontrava na Revolução Industrial e experimentos de galvanismo, como aqueles conduzidos pelo médico italiano Luigi Alyisio Galvani (1737-1798), que usava eletricidade para ativar os membros de animais e humanos mortos, já eram conhecidos. Esses dois elementos foram influências para Shelley na criação de seu romance.
Mary Shelley não era cientista, mas seu livro criou o mito moderno da ciência

“Ela não era cientista, mas seu livro criou o mito moderno da ciência”, afirma a bióloga e teórica da literatura Lúcia Rodriguez de La Rocque, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para La Rocque, que estuda a relação entre ciência e ficção científica, Shelley levantou questões quanto ao desenvolvimento científico e corporificou a reação do público leigo à ciência.

“Embora ela deixasse uma porta aberta para as consequências positivas, ela deu ênfase às negativas. É claro que isso foi, em parte, uma escolha estilística, pois sem conflito, não há história”, observa a bióloga.

Ciência ambivalente


Autor de Frankenstein’s footsteps (algo como ‘Passos de Frankenstein’, ainda não publicado no Brasil), que discute a maneira como as ciências biológicas são divulgadas e sua relação com o livro da autora inglesa, Turney explica que Shelley trata o tema de uma maneira rica e complexa.
“Por um lado, ela percebe as vantagens de uma medicina avançada, como a eliminação da morte prematura e das doenças. Por outro, vê com temeridade a capacidade de controlar a reprodução e redesenhar os seres humanos, atividades que estariam sob controle de criaturas imperfeitas – nós.”

La Rocque complementa: “Ela distingue entre uma ciência boa e uma má. Estudar a natureza seria algo aceitável; tentar manipulá-la, não.”

“Estudar a natureza seria algo aceitável; tentar manipulá-la, não.”
Essa abordagem mudaria com o avanço do gênero -- a ciência e a tecnologia em si seriam neutras; seus usos, por outro lado, poderiam ser moralmente questionáveis. Mas a obra de Shelley foi tão marcante que acabou estabelecendo a base da imagem pública da ciência. “Ela criou o arquétipo do cientista louco, aquele homem frio, cuja obsessão científica o afasta do bem”, relata.

 

Rígida e suave

É na segunda metade do século 19 que surge o que se convenciona chamar de ficção científica, simbolizado pelas obras do inglês Herbert George (H.G.) Wells (1866–1946) e do francês Júlio Verne (1828-1905), considerados os ‘pais’ do gênero.
Aqui já é possível ver a semente do que mais tarde seriam chamados os subgêneros hard (rígido) e soft (suave) dessa literatura. No primeiro, o autor se limita a utilizar na história apenas o que é considerado possível pela ciência da época ou extrapolações plausíveis. Verne seria um exemplo desse estilo. Em 20 mil léguas submarinas, ele dá explicações detalhadas do funcionamento do submarino do capitão Nemo, o Nautilus.
Já na soft, o fato científico pode ser usado como ponto de partida, mas a narrativa não está presa a ele e pode envolver temas das ciências sociais. É o caso de Wells, que abordou a estratificação social da Inglaterra em A máquina do tempo. Diz-se que, quando questionado a respeito da obra do inglês, Verne teria dito que ele mentia.

“Apesar disso, as obras de Wells têm conceitos que poderiam ser considerados revolucionários, como tratar o tempo como uma quarta dimensão, em A máquina do tempo, e a engenharia genética, em A ilha do doutor Moreau”, conta La Rocque.

Outra diferença entre os ‘pais’ da ficção científica era sua abordagem quanto à tecnologia: Verne a via como algo positivo, enquanto nas histórias de Wells as coisas não eram tão felizes assim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Que aprendizado a tragédia do Japão nos proporciona?

O Japão é um país de contrastes entre o moderno e a tradição. Os eventos provocados pelo terremoto deste março de 2011 mostram um lado do Japão muitas vezes pouco lembrado: de uma sociedade organizada, solidária e preparada para as catástrofes que assolam a ilha, pela sua localização geográfica.

Quem acompanhou as impressionantes e destrutivas imagens do tsunami e as do tremor pode ter uma noção dos estragos. O que chamou a atenção é a forma organizada e calma como os japoneses enfrentaram o antes e o depois da tragédia. O texto que segue trás algumas considerações significativas para podermos pensar como nos prepararmos para tais situações. Não podemos frear os fenômenos naturais, mas sim tentar minimizar seus impactos. A tendência é termos mais situações de emergência (alagamentos, tsunamis, tufões....) que afetarão mais seres humanos causados pela crescimento populacional das cidades.
Estarmos preparados, minimamente, é fundamental para salvarmos vidas. Fico imaginando a tragédia e o número de mortos se algo semelhante acontecesse no Brasil....  

Que aprendizado a tragédia do Japão nos proporciona?

Por Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Uma cultura que realça valores como tradição, disciplina e solidariedade ajuda a proteger vidas e a construir uma sociedade sustentável.

Pode a cultura de um povo ajudá-lo a enfrentar tragédias, aprender com elas e superar os problemas? Sim, pode. É o que podemos depreender das sucessivas catástrofes que vêm atingindo o Japão desde a última sexta-feira (11/3).

O Japão, como boa parte do Extremo Oriente, está sujeito a terremotos e tsunâmis. Só para lembrar a história recente, um terremoto de 7,2 graus na escala Richter atingiu a cidade de Kobe, importante centro econômico japonês. Foi o primeiro a atingir maciçamente uma área urbana densamente povoada no país. O abalo durou 20 segundos, destruiu a infraestrutura da cidade, moradias, hospitais e escolas, matando 6.437 pessoas e deixando 222.127 desabrigados, que precisaram se refugiar em locais provisórios por um longo período, até suas casas serem reconstruídas.

A exatidão dos números mostra o cuidado com que o Estado japonês lida com a situação. E como aprende com elas. A tragédia de Kobe passou a fazer parte dos livros escolares e das aulas de todas as matérias curriculares, do ensino fundamental aos cursos universitários. Aos alunos das escolas fundamentais, os professores de cada matéria realçam como se deve reagir quando a terra tremer, onde buscar abrigo, a quem pedir socorro e como ajudar outras pessoas, caso não seja um dos atingidos. A mensagem que se pretende incutir em cada cidadão é a seguinte: não se pode evitar esses eventos naturais, mas é possível reduzir e até zerar as mortes e a destruição.

Essa lição foi assimilada tanto pelo Estado quanto pela sociedade japonesa e, pelos relatos que chegam até nós, vem sendo posta em prática na tragédia atual. Na sexta-feira, um tremor de 8,9 graus na escala Richter – o maior já registrado em 140 anos de medição no país –, com epicentro a 125 km da costa noroeste do Japão, provocou um tsunâmi e deslocou o eixo da Terra em 10 centímetros.

As cidades de Fukushima, Miyaki, Iwate e Ibaraki foram atingidas em cheio pelas ondas de mais de 7 metros e pelos tremores. No entanto, quase 9 milhões de habitantes foram salvos pelas medidas preventivas e pela solidariedade dos habitantes que se prontificaram a receber em suas casas os concidadãos atingidos. Até agora, foram oficialmente contabilizadas 1.627 mortes, mas esse total pode chegar a 5.000. Há 450 mil desabrigados. O terremoto no Haiti, de 7 graus, matou 230 mil pessoas.

O que faz a diferença? Primeiro, instituições confiáveis aos olhos da sociedade. Assim, quando os alertas foram lançados pelos meios de comunicação, a população acreditou. Em segundo lugar, a solidariedade. De imediato, equipamentos públicos foram postos à disposição dos potenciais atingidos. E também as casas particulares de cidadãos desconhecidos, que se ofereceram para dar abrigo.

É de se notar ainda a disciplina e o planejamento. Entre o anúncio do tremor e a formação da primeira onda gigante que varreu Fukushima, passaram-se não mais do que 15 minutos. Esse tempo foi suficiente para a população ser alertada e procurar abrigo em construções de concreto ou em prédios acima de três andares. Moradores desses locais abriram suas portas a desconhecidos. Todos conhecem rotas seguras para chegar aos refúgios, as quais, prevendo-se desastres, são bem sinalizadas.

Todos os veículos de comunicação divulgam as áreas de risco e como evitá-las. E as autoridades também põem à disposição um site e um telefone (que funcionam) para pedidos de ajuda.

Ainda sobre a educação do povo, todos sabem que não podem acender fogo depois dos tremores, para não causar incêndios por causa dos vazamentos de gás, piorando a situação. Daí as notícias que lemos a respeito de pessoas que estão ao relento ou em casas sem eletricidade, num frio próximo a zero grau.

Outro dado interessante: quando o tremor ocorreu, centenas de milhares de pessoas usavam transporte público. Seguindo as orientações já conhecidas desde a escola, ficaram sentadas em seus lugares, esperando ordens de evacuação, sem ansiedade ou quebra-quebra. E, tirando o roubo de algumas centenas de bicicletas – o único meio de transporte na destruição que se verificou –, não houve outras ocorrências, como saques ou violência, a exemplo do que ocorreu durante os recentes terremotos no Haiti e no Chile.

Os desabrigados tampouco se sentem sozinhos. Passado o tremor, começam a distribuição de água, mantimentos e cobertores, e os donativos que chegam são rapidamente distribuídos por um sistema de logística específico.

Outra diferença importante no caso do Japão é a atitude dos políticos, do primeiro-ministro aos representantes municipais. Todos se preocupam em informar a população sobre a real extensão dos eventos e as medidas adotadas, ouvindo ao vivo críticas ou sugestões.

A primeira medida de reconstrução anunciada é o investimento em mais pesquisas tecnológicas para diminuir as perdas humanas e os prejuízos financeiros. A outra é rever as já rígidas normas de ocupação do solo e as regras sobre a qualidade das construções, com o intuito de deslocar as edificações (e as pessoas) para áreas consideradas mais seguras.

Nós, no Brasil, não temos terremotos, felizmente. Mas andamos sofrendo demais com as enchentes. Deveríamos ter a humildade oriental para assimilar o máximo possível dessas lições, a fim de evitar as tragédias anunciadas de todo verão.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/que-aprendizado-a-tragedia-do-japao-nos-proporciona

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O rádio e as mudanças dos sentidos

Para os mais jovens este artigo mostra um pouco das formas de divulgação de noticias e outras "cositas" mais em tempos em que a imagem não valia, ainda, por mil palavras. O rádio e as transmissões sonoras eram a forma que as pessoas tinham de "ver" o mundo nas primeiras décadas do século XX. Mudanças de sentidos com as mudanças das tecnologias.

Um mundo sem televisão e internet, para muitos impossível frente as possibilidades existentes, mas que existe muitos interiores do Brasil ainda que o rádio faz a ponte com as novidades e notícias.  Vivemos numa mesma época, mas em tempos muitos diferentes!

O rei, o discurso e o rádio

Motivada pelo filme ‘O discurso do rei’, que se passa em uma época em que o rádio ocupava papel de destaque na sociedade, Keila Grinberg conta a história desse que foi o maior fenômeno de comunicação da primeira metade do século 20.

Por: Keila Grinberg                               Publicado em 15/02/2011 | Atualizado em Feb 15, 2011

(foto: George W. Ackerman/ Governo Federal dos Estados Unidos)

Que ninguém se engane: o personagem principal de O discurso do rei, um dos filmes favoritos a ganhar várias estatuetas do Oscar de 2011, não é o príncipe Albert Frederick Arthur George (interpretado por Colin Firth, candidato ao prêmio de melhor ator), que assume a contragosto o trono do império britânico e torna-se o rei George VI.

Muito menos o quase excêntrico terapeuta da fala Lionel Logue (interpretado por Geoffrey Rush, também sério candidato a levar a estatueta, na categoria de melhor ator coadjuvante), que tem a tarefa de ajudar o novo rei a superar o nervosismo e a gagueira durante seus discursos.
O grande personagem do filme é o rádio. Afinal, é só porque o príncipe precisa falar em público – e para todo o império britânico – que a necessidade de tratar sua gagueira é tão premente.
Em torno do rádio se passam as principais cenas do filme: da leitura do discurso – depois apropriadamente fotografado, como se ele tivesse sido feito no escritório de trabalho do rei – a sua transmissão e difusão para todo o império britânico.

Em seu primeiro discurso de guerra, por exemplo, proferido em 3 de setembro de 1939, dois dias depois de as tropas alemãs invadirem a Polônia e darem o pontapé inicial para a Segunda Guerra Mundial, George VI disse que queria falar a seus súditos como se estivesse entrando na casa deles.

Ouça abaixo a transmissão original do discurso



E era isso mesmo. Quem quer que falasse no rádio entrava na casa das pessoas, convivia com elas como se de fato as conhecesse. O rádio ocupava o espaço nobre das salas de estar, e o horário das notícias e dos programas transformava a vida das pessoas, pois ditava a própria organização do cotidiano familiar.

A era de ouro

Como bem disse o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-), o rádio “trazia o mundo à sua sala”. Ninguém jantava ouvindo rádio ou conversava ouvindo rádio – e a música que se ouvia jamais era “de fundo”, como hoje em dia. Hoje ouvimos rádio enquanto fazemos alguma outra coisa: dirigimos, cozinhamos, trabalhamos. Mas, na chamada ‘era do rádio’, isso jamais acontecia.
 
Assim como ocorreu com o avião, há quem advogue que o inventor do rádio foi um brasileiro
De fato, o rádio foi o maior fenômeno de comunicação da primeira metade do século 20, e ele ainda continua ocupando lugar de destaque entre os meios de comunicação, embora quem nasceu depois do advento da internet possa duvidar disso. Pois é: a primeira tecnologia wireless (sem fios) não foi criada para os computadores, mas para a propagação de ondas eletromagnéticas, as ‘ondas do rádio’.

Aliás, assim como ocorreu com o avião, há quem advogue que o inventor do rádio foi um brasileiro. Um ano antes de o físico italiano Guglielmo Marconi (1874-1937) se tornar mundialmente conhecido como o inventor do primeiro transmissor de ondas eletromagnéticas, o padre brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928) fez, em 1894, uma demonstração de transmissão de ruídos da avenida Paulista ao alto de Santana, em São Paulo.

Por conta dessa e de outras façanhas, Landell de Moura foi reconhecido em 1904 como o inventor do telégrafo sem fio, do telefone sem fio e do transmissor de ondas sonoras.
Seja como for, a primeira radiodifusão aconteceu mesmo em 1916, em Nova Iorque (Estados Unidos). Com a invenção do microfone, já nos anos 1920, estavam criadas as condições técnicas para que o rádio deixasse de ser um aparelho utilizado apenas para fins militares e ganhasse o mundo.
Para liberar as sobras dos aparelhos fabricados durante a Primeira Guerra Mundial, a companhia norte-americana Westinghouse Electric Co instalou uma grande antena em sua fábrica e começou a transmitir música para seus vizinhos. Daí a começar a vender os aparelhos de rádio encalhados, foi um pulo.

Surgia então o primeiro meio de comunicação digno do título ‘de massa’, responsável pela criação de mais de 300 emissoras nos Estados Unidos no espaço de pouco mais de um ano.

Transmissão radiofônica no Brasil

No Brasil, a primeira transmissão radiofônica oficial foi o discurso do presidente Epitácio Pessoa (1865-1942), para comemorar o centenário da independência do país, em 1922. O discurso foi proferido na Praia Vermelha, mas o transmissor foi instalado no alto do Corcovado, pela mesma Westinghouse Electric Co.

A década de 1930 viu surgir as primeiras grandes rádios brasileiras – como a Rádio Nacional, a Rádio Bandeirantes e a Rádio Globo –, e com elas os programas governamentais, como A Hora do Brasil (hoje Voz do Brasil). No programa, as notícias oficiais eram veiculadas e o presidente Getúlio Vargas (1882-1954) dirigia-se diretamente a cada um dos brasileiros, assim como fez o rei George VI e como já faziam, na mesma época, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt (1881-1945) e o ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945).
Seguindo essa mesma linha de apresentação, em 1941 foi lançado o Repórter Esso, primeiro e mais importante jornal brasileiro transmitido por rádio, que durou até 1968. O bordão “a Segunda Guerra acabou depois que o Repórter Esso noticiou” evidencia bem a dimensão da credibilidade e da importância que o programa tinha no Brasil.
Mas nenhum outro episódio foi tão representativo da importância alcançada pelo rádio como a transmissão da simulação de um ataque marciano aos Estados Unidos feita pelo cineasta norte-americano Orson Welles (1915-1985) em 1938. Era para ser apenas uma peça de audioteatro, mas a transmissão pela Rádio CBS do drama na véspera do dia das bruxas deu à peça ares de realidade.

Welles adaptou o livro A Guerra dos Mundos, lançado em 1898 pelo escritor britânico H.G. Wells (1866-1946), para a linguagem radiofônica, como se fosse uma cobertura jornalística verdadeira (ouça a versão original em inglês).

O resultado foi quase inacreditável: em pânico, muitas pessoas acreditaram que os marcianos tinham mesmo invadido os Estados Unidos. Orson Welles passou o resto da vida tendo que se defender das acusações de ter deliberadamente espalhado terror pelo rádio.

Quem dera o rei George VI também pudesse ter sido acusado de pregar uma peça na população por ter anunciado, em 1939, que “dias terríveis” estavam a caminho.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

EUA seguem o seu velho e surrado manual com os protestos no Egito

A situação de protestos no Egito entrou o mês de fevereiro a dentro e pelo que percebe-se não irá retroceder até as mudanças acontecerem. Com certeza é uma revolução que se desenrola na país e na região.

Como muita coisa circula pelas mídias, com as mais diferentes versões e opiniões, esta entrevista com o professor Noam Chomsky, critico ferrenho das políticas estadunidenses, trás a tona o mais do mesmo, ou seja, mostra como não há mudança na forma como os EUA encaram e tentam manter seu domínio no mundo.


Chomsky: EUA estão seguindo seu manual no Egito

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, Noam Chomsky analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles.

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Yemen de abandonar o cargo ao final de seu mandato.

O Democracy Now falou com o professor do MIT, Noam Chomsky, acerca do que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”.

Amy Goodman: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?

Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Amy Goodman: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?

Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos tem um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses. Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Amy Goodman: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?

Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

Amy Goodman: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?

Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.

Amy Goodman: O que acontecerá com a Jordânia?

Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.

Tradução: Katarina Peixoto

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Você está sendo filmado, não se importe!

Há alguns anos atrás, com a instalação das câmeras de vigilância, como uma tentativa de criar uma sensação de segurança, era colocada também nas paredes dos estabelecimentos uma plaquinha, com uma carinha risonha, pedindo "Sorria, você esta sendo filmado".

Inicialmente era algo que deixou muitas e muitas pessoas incomodadas, preocupadas. Estou sendo filmado? Por quê? O que vão fazer com minhas imagens? Ser filmado era algo incomum para a maioria da população. Isto há alguns anos, não muitos, caro leitor.

O tempo foi passando, a plaquinha com a carinha risonha foi sumindo, mas as câmeras não. Pelo contrário, aumentaram significativamente, nos estabelecimentos comerciais mais variadas, nos espaços públicos, em nossas residências e, com a popularização da tecnologia digital, ser fotografado ou filmado é algo que qualquer pessoa que tenha um celular (com câmera) pode fazer. Você esta sendo filmado? Sim, provavelmente algumas vezes por dia, sem sequer perceber ou se preocupar com isto. Naturalizamos este processo e as imagens agora se multiplicam e são publicizadas algumas infinitas vezes na internet.

As "vídeo cassetadas" (como um programa de domingo que chamava como uma das suas principais atrações os vídeos de tombos, escorregões e outras situações familiares captadas por câmeras domesticadas) já perderam a graça. Mortes, violência, agressões e outras situações reais é que causam impacto ou comoção e também não nos assustamos mais quando vemos alguém ser morto com 9, 10, 11 tiros, sentados em frente a televisão ou no computador.

Novos tempos. O artigo a seguir ilustra, a partir de uma visão de um repórter estadunidense, esta mudança de nossas sensações e compreensões deste mundo que para muitos dos mais jovens sempre teve internet, celular, dados digitais....

Você Está Sendo Observado, não Ligue

Temor sobre privacidade é exagerado, mesmo no mundo sempre conectado

por David Pogue


Em 2004, o Google lançou o Gmail: poderosa conta de e-mail com capacidade de armazenamento de um gigabyte – 500 vezes o que o Hotmail oferecia. Com tanta capacidade, o Gmail original nem sequer tinha o botão de excluir. E tudo gratuito.

Mas nem todos festejaram. O Gmail pagava por toda essa maravilha graças à exibição de pequenos textos de anúncio à direita de cada mensagem recebida, relacionados a seu conteúdo. Defensores de privacidade ficaram possessos. Parecia que, para eles, não importava o fato de que era um algoritmo de software e não um ser humano que vasculhava suas mensagens em busca de palavras-chave. O Electronic Privacy Information Center (Centro de Informação de Privacidade Eletrônica) exigiu o fechamento do Gmail, e um senador da Califórnia propôs um projeto de lei que tornava ilegal a pesquisa de conteúdo das mensagens recebidas.

Dois anos depois, um serviço chamado Futurephone permitia a qualquer um fazer uma quantidade ilimitada de chamadas internacionais gratuitas. Bastava discar uma linha em Iowa e então, após o sinal, digitar o número desejado. Não era preciso fornecer seu nome, endereço de e-mail ou qualquer outra informação.

Quando escrevi sobre o Futurephone para o New York Times, pensei estar fazendo um favor aos meus leitores, mas, em vez disso, deixei-os loucos tentando descobrir como a Futurephone ganhava dinheiro. Muitos concluíram que era um golpe muito elaborado para coletar números de telefone.

Mas por que, respondi em meu blog, o Futurephone teria todo esse trabalho se já existe uma lista telefônica nacional? Muito bem, meus preocupados leitores disseram então que, nesse caso, a Futurephone deve estar “ouvindo nossas conversas”.

Para muitas pessoas, parece que quanto mais tempo passamos on-line, mais ofertas de conveniência nos são feitas em troca de nossa privacidade. Cartões de fidelidade de supermercados nos oferecem descontos, mas também permitem rastrear o que estamos comprando e comendo. A Amazon.com nos saúda pelo nome e nos lembra o que já compramos. O Facebook reuniu o maior banco de dados de informações pessoais na história humana (mais de meio bilhão de pessoas). Os cartões de crédito deixam um rastro. Telefones dão às companhias telefônicas o registro de seus interlocutores.

Claro que existem boas razões para proteger certos aspectos de nossa privacidade. Não gostaríamos que informações médicas ou financeiras de nossa vida nos impedissem de conseguir um emprego ou até mesmo um encontro amoroso. Podemos não desejar que nossas proezas sexuais ou votos se tornem públicos.

Mas, além dessas exceções óbvias, os medos de falta de privacidade sempre foram mais uma reação emocional do que racional. (Alguém realmente se importa com que tipo de comida compramos? E, em caso afirmativo, isso faz alguma diferença?) E no mundo virtual, muito disso é simplesmente medo do desconhecido, do que é novo.

Com o tempo, conforme o desconhecido se torne familiar, cada nova onda de terror de privacidade on-line parece se desfazer. Ninguém se surpreende mais com os mapeamentos de propaganda do Gmail. E até mesmo pessoas de meia- idade e avós estão se inscrevendo no Facebook.

(E o Futurephone? Não existe mais. Blogueiros investigativos descobriram seu modelo de negócios mais provável: a empresa explorava um subsídio do governo, que pagaria ao Estado de Iowa alguns centavos por cada chamada de longa distância recebida. E Iowa estaria dividindo o lucro com o Futurephone.)

A geração mais jovem não consegue sequer compreender por que os mais velhos se preocupam tanto com a privacidade. De fato, todo o apelo dos mais recentes serviços on-line é divulgar informações pessoais. De propósito. Os aplicativos Foursquare, Gowalla e Facebook Places divulgam até mesmo a sua localização atual, para que seus amigos possam seguir seus movimentos (e, claro, encontrá-lo).

Se você está entre aqueles que pensam que o Google ultrapassou os limites da privacidade com o Gmail, então certamente está surtando com todas essas novidades. O Google está coletando dados sobre o que assistimos (Google TV), aonde vamos (Google Maps), para quem ligamos (telefones Android), o que dizemos (Google Buzz) e o que fazemos on-line (navegador Google Chrome).

Mas algumas defesas de nossa privacidade acabaram há anos. O medo que você sente pode ser real, mas o risco de alguém realmente estar buscando detalhes tediosos sobre sua vida é certamente pequeno. Como o medo de voar, ataques de tubarões ou de raios, seu instinto pode não estar recebendo dados realistas de seu cérebro.

David Pogue David Pogue é colunista de tecnologia pessoal do New York Times e ganhador do prêmio Emmy como correspondente da CBS News.

Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/voce_esta_sendo_observado_nao_ligue.html


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

A eleição de Obama, como presidente dos EUA, pareceu a muitos, uma forma de redenção do "Império" e uma nova geopolítica mundial poderia estar surgindo neste processo. Infelizmente, o que visualizamos nos últimos meses, é a continuação das mesmas políticas e do imobilismo do presidente dentro e fora do país nas tão faladas mudanças que seriam geradas.

Este trecho da entrevista do historiador e escritor paquistanês Tariq Ali traz algumas provocações e indagações interessantes. Vale a pena conferir a leitura quem se busca entender as estratégias e políticas internacionais oriundas do impacto do 11 de setembro de 2001!

Entrevista Tariq Ali:
"O império americano precisava desesperadamente de Barack Obama"

Por Tatiana Merlino

Enganaram-se aqueles que acreditaram que Obama representaria uma mudança na política interna e externa da principal economia do mundo. “Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O banco Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões”, afirma Tariq Ali, escritor e historiador de origem paquistanesa e radicado na Inglaterra. Ali, que está entre um dos mais respeitados intelectuais de esquerda, lançou, recentemente, o livro The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad (A síndrome de Obama: capitulação em casa, guerra fora), ainda sem previsão para publicação em português. Na obra, Tariq Ali analisa os primeiros 18 meses do presidente, que define como um “político-máquina do Partido Democrata em Chicago”.

Nesta entrevista, o historiador também discute a relação dos Estados Unidos com o Paquistão, país que, segundo ele, está sendo usado pelos interesses estadunidenses na guerra do Afeganistão. “Muitos dos terroristas de hoje foram treinados nos Estados Unidos, onde aprenderam como atirar em helicópteros. Hoje é altamente irônico que eles estejam fazendo isso contra os Estados Unidos”.

Tariq Ali ainda analisa a crise financeira mundial de 2008, que, define como a mais séria crisedo capitalismo desde 1929. Sobre o processo eleitoral brasileiro, Tariq Ali, bastante crítico ao governo Lula, disse que ficou feliz por José Serra ter sido derrotado nas urnas, mas quando viu a presidente eleita numa foto com Antonio Palocci (que será o ministro da Casa Civil de Dilma) pensou “ai, meu deus... Esse cara é o mais articulado defensor de políticas econômicas neoliberais e o país não precisa de pessoas como ele, mas sim de pessoas que pensem diferente”.

Caros Amigos - Queria começar por seu último livro: “A Síndrome de Obama: Capitulação em casa, Guerra fora”. O que aconteceu, por que Obama está rendido em casa, foi uma cilada?
Tariq Ali - Não, não é uma cilada. Basicamente é importante entender que Obama é, essencialmente, um político-máquina, da máquina do Partido Democrata em Chicago. Um dos piores do país. No meu livro sobre Obama eu o descrevo como a aparição mais inventiva que o império criou de si mesmo. O império americano precisava de Obama, desesperadamente. Muitas pessoas assumiram, automaticamente, que Obama seria melhor do que Bush. Não apenas nos Estados Unidos. No mundo inteiro. Eles tinham ilusões reais. Até pessoas de esquerda, até o lideres bolivarianos, como Hugo Chávez. Eles tinham verdadeira esperança, não ilusões. Lula realmente acreditou quando Obama disse “sim, intervenha em nosso nome com o Irã”. Não é que Lula foi como a imprensa disse: “ele foi ingênuo”. Não é uma questão de ingenuidade. Obama disse ao Lula e para o líder turco, “por favor, nos ajude com o Irã”, e eles o fizeram. Eles conseguiram que os iranianos concordassem com o plano, e então os americanos recuaram.

Muitas pessoas acreditaram em Obama e se esqueceram que ele levantou mais dinheiro de Wall Street do que Hillary Clinton e John McCain juntos. O Goldman Sachs e muitos outros deram-lhe milhões. Eles não iam tocar um música que Wall Street não gostasse. Isso era óbvio. As pessoas achavam que as reformas da saúde seriam reformas de verdade, que haveria serviço de saúde de verdade, como há na Europa. Eles subestimaram o lobby da indústria farmacêutica e das empresas de plano de saúde e asseguraram que as reformas estavam sob seu controle. Então, quando houve as pressões das corporações nos Estados Unidos, Obama capitulou. Fora do país, houve guerra, como usualmente. Mas, internamente, mesmo com promessas que não tem nada a ver com as corporações, como “iremos fechar Guantánamo”, não se fez nada. Com o que se prometeu de “iremos acabar com tortura, rendições”, também nada. O chefe da CIA, Leon Panetta, foi questionado sobre as torturas, e nada ocorreu. Então, o desapontamento entre seus próprios apoiadores nos EUA é muito alto. Eu estava nos Estados Unidos durante a campanha de Obama, e não há dúvida que entre as idades de 18 e 26, uma quantidade enorme de jovens se mobilizaram por ele. Então, essas são as pessoas mais desapontadas com Obama nos EUA.

Caros Amigos - Quais são as consequências desse desapontamento?
Nas eleições de meio mandato, muitos dos apoiadores de Obama não votaram, eles ficaram em casa. Então, os republicamos ganharam a Câmara dos Representantes, com uma maioria enorme, e no Senado, teve uma pequena maioria para o Obama, mas eles perderam. E se continuar assim, é uma pergunta em aberto o que irá acontecer em 2012. Não que isso importe, pois o sistema é tão forte agora, que é necessário ser um presidente muito corajoso e confiante para mudar isso, mesmo que pouco.

Caros Amigos - Como a guerra no Afeganistão está afetando o Paquistão? Por que os Estados Unidos querem comprometer Paquistão contra os talebans?
Os Estados Unidos não podem acreditar que eles não podem ganhar aquela guerra. Então, eles precisam achar pessoas para culpar e quem eles podem mais facilmente culpar é o Paquistão. Então, é por isso que eles estendem a guerra ao Paquistão. Isso criou uma situação em que uma pesquisa de opinião conduzida por uma organização estadunidense descobriu que 70% dos paquistaneses dizem que o maior mal no mundo são os Estados Unidos. E isso não é oposição religiosa e sim oposição política ao projeto americano. Isso é, essencialmente, porque os Estados Unidos fizeram isso. Isso criou uma confusão enorme, não apenas no Afeganistão, mas também no Paquistão, e essa é uma história triste. Muitas pessoas, incluindo eu, os odiamos. Se você mantém a guerra, há possibilidades perigosas para todo mundo, para o país, e não se pode ganhar a guerra no Afeganistão assim. Essa é a guerra que eles não podem ganhar. Como você pode ganhar uma guerra quando a maioria das pessoas se opõe à sua presença?

Caros Amigos - Como é a situação no Paquistão, hoje?
Eu analiso o Paquistão em um meu livro Duelo. É um país onde há uma elite e exército corruptos e venais. Todos eles prontos para ganhar dinheiro e prontos para fazer o que os Estados Unidos querem. É um país onde não há educação para os pobres, não há saúde, moradia e comida para pobres. E é um país grande, de 200 milhões de pessoas. E a imagem que as pessoas tem é de um país fora do controle, com pessoas loucas com barba. E é uma imagem horrível. E não é verdade. Quando há eleições, menos de 5% da população vota nos partidos religiosos moderados. A maioria não gosta deles. Provavelmente há mais religiosos fundamentalistas nos Estados Unidos e no Brasil do que no Paquistão. Então, o problema real do país é pobreza e má nutrição. E se algum governo tentar resolver esses problemas, o país será transformado, mas eles não fazem isso, porque se sentem ameaçados. É uma classe dominante realmente nojenta. Eles apenas querem fazer dinheiro. E o presidente atual do Paquistão, Asif Ali Zardari é um criminoso. E todo país sabe disso. Mas os Estados Unidos gostam dele porque ele faz o que eles dizem.

Caros Amigos - O que eles pedem?
“Fazer o que dizemos, vá e brigue aqui, vá e brigue lá”, e os Estados Unidos controlam esse país há muito tempo. Agora culpam o país sobre o que eles pediram para fazer no passado. Como esses pequenos grupos extremistas surgiram? Porque eles estavam em guerra pelos Estados Unidos contra a União Soviética nos anos 1980. Eles foram criados pelos EUA. Os livros que eles estudavam nas escolas religiosas foram publicados no Arizona, na Universidade de Nebraska. Muitos dos terroristas de hoje foram treinados nos Estados Unidos, onde aprenderam como atirar em helicópteros. Hoje é altamente irônico que eles estejam fazendo isso contra os Estados Unidos. É um país que está sendo usado. Um general aposentado me disse uma vez e eu coloquei isso num dos meus artigos. Ele disse “você tem que entender que para os Estados Unidos o Paquistão é como uma camisinha. Eles nos usam e nos descartam”. É uma descrição muito gráfica.

Caros Amigos - O país está sendo usado para confrontar os talebans também?
Sim, mas eles não podem. Ele está sendo usado, mas os militares não querem fazer isso porque pode criar problemas ao matar pessoas que os ajudaram no passado. Hoje, vemos os Estados Unidos usando o Paquistão militarmente para dialogar com o taleban ou com os neotalebans, os novos grupos que estão surgindo. Nos últimos três, quatro anos tem havido discussões entre os talebans, insurgentes e agências de inteligência dos Estados Unidos. E os EUA estão dizendo, “juntem-se ao governo de coalizão em Cabul”, e eles disseram: “enquanto vocês estiverem no nosso país, não o faremos. Primeiro, todas as tropas estrangeiras devem sair, e depois nós decidimos o que faremos”.

Caros Amigos - Como o senhor vê a reação de Obama em relação ao vazamento das informações do WikiLeaks sobre as violações de direitos humanos?
Basicamente, todos sabem o que eles fazem. E os WikiLeaks não foram uma surpresa para ninguém. O argumento de que tais documentos colocam em risco de vida os americanos é estúpido, porque isso é assumir que o país onde isso está acontecendo as pessoas não sabem disso, isso é novo para elas. Eles sabem disso, então por que estão em perigo, se não é um segredo? Os americanos torturaram pessoas no Vietnã, abertamente, então por que é um grande segredo que impérios torturam suas vítimas e sua resistência? Eles fazem isso na prisão de Bagram, no Afeganistão, que é uma câmara de horror comparada com Guantánamo.

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Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/