Metamorfoses Históricas: História, livros, músicas, cinema e motos!

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sábado, 24 de março de 2012

Raul Seixas: o grande filósofo....

'Raul - O início, o fim e o meio'

Jornal do Brasil Gabriel Medeiros
Na edição de 2009 do Festival do Rio, Walter Carvalho subiu ao palco do Odeon para apresentar o trailer do filme que estava produzindo, sobre a vida de Raul Seixas. Deixou todos os presentes, que estavam na expectativa de assistir ao lançamento de Bastardos inglórios, com água na boca. Dois anos depois, encerrando o festival do Rio, o diretor voltou ao Odeon para mostrar seu Raul: O início, o fim e o meio, filme que acompanha toda a trajetória de vida desse mito do rock brasileiro. Nesta sexta-feira (23), o filme estreia nos cinemas nacionais.
E é a busca por não deixar faltar nenhum detalhe importante da vida de Raul que deliciou os espectadores, que esperavam entusiasmados, aos gritos de “Toca Raul!”. 
Filme foi escolhido para encerrar o Festival
Filme foi escolhido para encerrar o Festival
O filme traz entrevistas com pessoas de todas as etapas da vida de Raul, desde a infância na Bahia, passando pelas diversas mulheres e companheiras, pelo parceiro nos anos finais de vida, Marcelo Nova e um depoimento exclusivo com Paulo Coelho, parceiro de composição de muitos sucessos de Raul e o responsável por apresentá-lo às drogas. Conhecido pela sua reclusão e dificuldade de conceder entrevistas, o escritor falou por mais de duas horas com a equipe e é responsável por alguns dos melhores trechos do filme.
Durante o festival do Rio, Walter subiu ao palco e passou às coxias, voltando com uma guitarra vermelha. “Essa guitarra foi do Raul por muitos anos, e a presença dela aqui é uma maneira do Raul também estar presente”, falou o diretor. 
Para ele, o mais impressionante é a figura de Raul Seixas continuar sendo tão querida com o passar dos anos, e pelas novas gerações. A lenda mostrou ainda estar viva. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Copa do mundo 2014: muitas promessas e polêmicas pouca ação

O Brasil vive nos últimos anos a euforia de sediar grandes eventos esportivos, mas as promessas de melhoria nas cidades que receberão os jogos cada vez mais se tornam uma miragem no meio do deserto de discursos dos envolvidos. A Copa do Mundo de 2014 é um exemplo mais próximo e trem bala, ampliação de aeroportos, metrôs, melhoria na malha rodoviária.... nada disso acontece.
O país da desigualdade investe bilhões em obras que são super hiper mega faturadas, como foi o caso do Pan do Rio de Janeiro e nada acontece. Com certeza não estarei nos estádios da Copa e muito menos assistirei a televisão e a massificação de quanto a Copa está trazendo de benefícios. Tanta coisa a fazer para o país e perde-se tempo para organizar a casa para o mundo ver! E terminando o evento, tudo volta ao normal, muitas vezes de maneira pior do que estávamos!! 

 

16.03.2012 15:35

O veto à cerveja e a falsa soberania

Por Matheus Pichonelli


Tenho um pesadelo recorrente. Vira e mexe sonho que dormi demais e acordo só na semana seguinte. Quando me levanto e me dirijo aos jornais, já não reconheço o mundo que deixei antes de dormir: o líder do campeonato não é mais o mesmo,  gente que estava na crista da onda já não é mais importante (muitos nem vivos estão), o que era proibido passa a ser permitido, e o que era permitido passa a ser proibido.
Se estivesse dormindo há uma semana e acordasse agora, por exemplo, tomaria um susto: Jucá e Vaccarezza não são mais interlocutores do governo no Congresso, Ricardo Teixeira caiu de maduro, o ministro do Desenvolvimento Agrário agora é outro e o Corinthians desistiu de esperar Adriano (há uma semana, ele fazia gol e todos falavam “agora vai”).
Mas nada me deixa mais confuso do que a Lei Geral da Copa. Fecho o jornal num dia, abro no outro e tenho a impressão de que dormi meses. Cada hora é uma regra que entra, outra que sai e eu não sei até agora com que roupa vamos para o Mundial.
O símbolo da Copa de uma Copa que até agora não definiu as regras do jogo
Enquanto o governo não se decide (até o fechamento deste texto o veto à bebida tinha caído), a cerveja nos estádios já virou questão nacional. Todos sabem que a Fifa é uma entidade privada com regras claras para promover um Mundial. Dá aos países o direito de sediar os jogos – e faturar com turistas e outras atrações – mas em troca leva um circo pré-montado. Quem não aceita as regras tem a possibilidade de não convidar o visitante – e quem convida já faria muito se vigiasse o ralo de dinheiro público empregado em elefantes brancos descartáveis após um mês de jogos.
Mesmo assim o festival de besteiras que assola o País, com o perdão ao velho Stanislaw Ponte Preta, fez com que a liberação (ou não) de bebida alcoólica nos estádios colocasse em risco a soberania nacional. O bate-cabeça sobre a regra, provocado em parte pela troca de interlocutores governistas no Congresso, mobilizou e quase gerou uma crise entre ministros, parlamentares, empresários, lobistas, o papa e a bancada religiosa (e cada vez que eles falam sobre o céu mais fico tentado a pedir asilo no inferno)…
Uma coisa garanto: nas periferia das cidades-sede a população não poderia se importar menos com a questão. Como brasileiro e torcedor, não me incomodo nem um pouco se vier cerveja estrangeira para as arquibancadas – até porque, ao que tudo indica, não estarei na arquibancada em 2014.
O que me incomoda é a patrulha montada sobre a questão – e, nessa, quem chama brasileiro de idiota não é a Fifa nem outra entidade , mas os próprios brasileiros, que se assumem como animais capazes de produzir hecatombes caso cheguem perto de bebida alcoólica.
É possível que garrafas, latas de cerveja ou qualquer outro objeto cortante possam virar armas de destruição em massa nas mãos de uma multidão enraivecida. Que usem copos de plástico ou isopor.
Mas, por aqui, é sempre melhor matar o cavalo com carrapatos do que se livrar dos carrapatos. É sempre mais fácil tratar o problema da bebida como caso de polícia, e não de saúde pública; mais fácil proibir do que prevenir; mais fácil vender remédio do que entender a doença. (Em tempo: estamos falando de consumo moderado num espaço específico; quem bebe e perde o controle é doente, e quem bebe, perde o controle e dirige é criminoso).

Quem defende o veto à bebida nos estádios usa como argumento o fato de o País não poder mudar a sua lei para atender aos caprichos de uma entidade privada. É uma meia verdade: querem é jogar para a torcida, fidelizar um eleitorado conservador crente de que tudo seria melhor se tudo fosse proibido e controlado, do vício ao vestuário, passando pelo modo de falar, pensar e sentir.
Jogo de futebol no Egito deixou dezenas de mortos. Foto: AFP
No Egito, uma briga entre torcidas levou recentemente dezenas de pessoas ao cemitério. No Brasil, onde não há guerra civil declarada, já vi muito torcedor ameaçar arrebentar portões, juízes e jogadores só por causa de um placar adverso. Não consta que tinham tomado cerveja no intervalo.
Quando o Brasil se candidatou a sediar os jogos, até as pedras do Arpoador sabiam quem a Fifa exige contrapartida aos países que escolhe como sede. Para isso foi criada a Lei Geral da Copa: para que as normas vigentes por aqui fossem adaptadas às condicionantes da entidade.
Simples assim.
Por aqui, a bebida é proibida nos estádios com o argumento de que, sob o efeito do álcool, os torcedores ficam mais propensos à violência. Conversa.
Basta analisar o histórico de pancadarias nos estádios para saber que ignoramos há muito tempo as razões da violência real. Em troca, compramos uma sensação ilusória de que os governantes, ao proibir a população de fazer o que se quer, são os principais vigilantes na ordem e da paz. Outra conversa.
Pancadaria no futebol
Em campo, jogadores trocam botinadas, incitam a torcida com gestos de declarações; técnicos e dirigentes distribuem provocações a rodo – muitas vezes jogando os próprios atletas contra os torcedores –, as organizadas cantam juras de morte aos rivais (“muitas vezes eu tive que parar, parar, parar pra dar porrada”); ingressos ficam nas mãos de cambistas, estacionamento viram espaço para extorsão; o transporte público para grandes eventos é precário, a pobreza no entorno é notória, enquanto os atos de racismo, homofobia e sexismo são quase entidades culturais nas arquibancadas.
E a culpa é de quem? Do vendedor de bebida.
O fato é que a bebida foi banida há anos dos estádios, mas estamos ainda a anos-luz de banir a violência no futebol. É porque segurança, saúde pública e civilidade não combinam com oportunismo nem hipocrisia.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A informação cada vez mais rápida... a muitos terabits daqui

E imaginar que a menos de 200 anos para enviar qualquer coisa, a mais simples mensagem, era um trabalho que envolvia dezenas de pessoas, muitas vezes... hoje é assustadora a capacidade humana de desenvolver a tecnologia e a transmissão de dados. Onde vamos parar? Com certeza a muitos terabits daqui....

 
Para quem não conhece, eis o telégrafo: tecnologia de ponta!!!


IBM apresenta chip óptico que transmite 1 Terabit por segundo
Redação do Site Inovação Tecnológica - 14/03/2012
IBM apresenta chip óptico que transmite 1 Terabit por segundo

"Traseira" do chip óptico furado, para transferência de dados de alta velocidade em sistemas de roteamento de redes, por meio da chamada óptica paralela. [Imagem: IBM]
Dados por luz
A IBM apresentou o protótipo de um sistema óptico de comunicação de dados capaz de transferir 1 Terabit de informação por segundo - o equivalente ao download de 500 filmes de alta definição.
O protótipo - batizado de Holey Optochip, algo como "chip óptico furado" - alcançou uma velocidade oito vezes superior à dos componentes ópticos paralelos já construídos até agora.
A velocidade alcançada é equivalente à banda de dados usada por 100.000 usuários dos canais de acesso à internet de altíssima velocidade, que chegam a 10 Mb/s nos países mais avançados.
Os processadores ópticos, ouprocessadores fotônicos, assim como os chips dedicados ao tráfego de dados pela rede, podem ser muito mais rápidos se deixarem de lado os elétrons e passarem a usar pulsos de luz.
É por isso que os engenheiros estão tentando desenvolver técnicas para a fabricação de chips baseados inteiramente na comunicação por luz, ou que sejam eficientes na "tradução" dos dados eletrônicos (transportados por elétrons) em dados fotônicos (transportados pelos fótons da luz).
Chip óptico furado
O Holey Optochip, que mede 5,2 x 5,8 milímetros, possui 48 furos feitos em uma pastilha de silício padrão.
Os furos permitem o acesso óptico pela traseira do chip a 24 canais de recepção e 24 canais de transmissão, gerando uma arquitetura muito rápida e, ao mesmo tempo, muito compacta.
O consumo de energia do chip furado é modesto, apenas 5 watts, embora a expectativa é que isso venha a melhorar ainda mais no futuro.
Este chip óptico é voltado para a transferência maciça de dados em sistemas de roteamento de redes, na chamada óptica paralela, uma tecnologia de fibras ópticas multimodo de curto alcance, tipicamente por volta de 150 metros.
A óptica paralela é diferente da comunicação serial por fibras ópticas tradicionais. Enquanto nesta a comunicação é apenas duplex, na óptica paralela os dados são transmitidos e recebidos simultaneamente, usando múltiplas fibras.
Trabalho pela frente
Embora esteja trabalhando ativamente na criação de processadores que operam com luz, a IBM afirma que a tecnologia ainda deverá demorar para vir acelerar o acesso à internet para os consumidores.
"Nós pretendemos otimizar a tecnologia para comercialização na próxima década, com a colaboração de parceiros da indústria," disse Clint Schow, pesquisador da empresa.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ainda no campo da ficção, a viagem no tempo é um tema de estudos e pesquisa sérias na atualidade. Será possível viajar no tempo como os filmes propõem? Seria possível alterar o passado e o futuro? Dúvidas que não teremos respostas em breve, mas a ciência avança.....

 

 
As viagens no tempo
A ciência estuda seriamente, há décadas, as viagens no tempo. Agora, o tema vem sendo revisitado, com base em ideias da informação quântica. No artigo de capa da CH de março, pesquisador discute a possibilidade de viajar no tempo sob esse novo enfoque.
Por: Ernesto F. Galvão
Publicado em 12/03/2012 | Atualizado em 12/03/2012
As viagens no tempo
Cena de ‘The Time Machine’ (1960), filme de ficção científica dirigido por George Pal e baseado no livro homônimo de H. G. Wells. Embora seja estudada há décadas, a ideia de viajar no tempo ainda impõe muitos desafios à ciência. (imagem: reprodução)
De certa forma, somos todos viajantes no tempo. E isso se dá a um ritmo constante, de 60 segundos por minuto. Seguimos, assim, rumo ao futuro. Mas, agora, imagine, leitor, uma ‘mágica’ que fizesse o tempo passar mais lentamente para você que para o resto do universo. Sob o efeito desse, digamos, encanto, você veria tudo ao seu redor envelhecer em marcha acelerada, o que, efetivamente, o levaria mais rapidamente para o futuro.
Em 1905, o físico de origem alemã Albert Einstein descreveu, em sua teoria da relatividade restrita, como a natureza permite esse ‘passe de mágica’. Essa teoria de Einstein prevê que o tempo passa mais lentamente para quem é acelerado a altíssimas velocidades. Essa dilatação temporal tem sido rotineiramente observada.
Em princípio, para viajarmos para um futuro ‘distante’, bastaria uma nave espacial muito rápida
Um modo clássico de se comprovar essa passagem mais lenta do tempo é fazer um relógio atômico ultrapreciso viajar a bordo de um avião supersônico. Quando se compara esse equipamento a um que permaneceu em terra, nota-se uma diminuta disparidade entre os tempos, que, inicialmente, eram iguais. O relógio a bordo atrasa em relação ao do solo.
Apesar de a dilatação temporal ocorrer a qualquer velocidade, esse efeito só é significativo quando atingimos velocidades comparáveis à da luz no vácuo (300 mil km/s). Portanto, em princípio, para viajarmos para um futuro ‘distante’, bastaria uma nave espacial muito rápida.


Curvando espaço e tempo

Vimos que, a todo instante, estamos viajando rumo ao futuro. No entanto, a física de viagens para o passado é bem mais complicada e controversa. Para entendermos a qestão, precisaremos de alguns conceitos básicos da física.
A melhor descrição que temos de como o espaço e o tempo se relacionam é a teoria da relatividade geral, de Einstein, finalizada em 1915. Apesar do nome, ela nada mais é do que uma teoria da gravitação, que substitui (ou generaliza) aquela idealizada, 250 anos antes, pelo físico inglês Isaac Newton (1642-1727).
Essa substituição é necessária quando lidamos com campos gravitacionais intensos ou velocidades comparáveis à da luz. Na relatividade geral, o espaço e o tempo formam um uno indissociável com quatro dimensões, três delas espaciais (altura, largura e comprimento) e uma temporal.
Mas, para nossos propósitos aqui, podemos imaginar o espaço-tempo – como os físicos denominam esse contínuo – como algo mais simples: uma daquelas camas elásticas usadas por malabaristas de circo. A relatividade geral prevê que a presença de matéria distorce o espaço-tempo, do mesmo modo que, em nossa analogia, uma grande esfera de chumbo curvaria nossa cama elástica. É justamente essa curvatura que faz com que os corpos se atraiam gravitacionalmente.
Cama-elástica
O conceito de espaço-tempo previsto na teoria da relatividade geral pode ser comparado a uma cama elástica, que é curvada pela presença de matéria. (foto: Janelle Siegrist/ Sxc.hu)
Quando jogamos uma pedra para cima, ela volta ao solo, ‘escorregando’ pelo espaço-tempo distorcido pela massa da Terra. Nosso planeta, por sua vez, se move pelo espaço-tempo curvado pela massa do Sol. E assim por diante.
O físico norte-americano John Archibald Wheeler (1911-2008) resumiu os fenômenos gravitacionais de forma quase poética: “A matéria diz ao espaço como se curvar. O espaço diz à matéria como se mover.” Essa distorção do espaço-tempo pode ser extrema, criando objetos curiosos, como os buracos negros, de onde nem a luz consegue escapar (ver CH 182).


De volta ao passado?

Na década de 1930, foi descoberta outra previsão estranha da relatividade geral: a possibilidade de caminhos espaço-temporais nos levarem a nosso próprio passado. Essas trajetórias que se curvam para o passado foram chamadas curvas tipo tempo fechadas – ou, simplesmente, CTCs, do nome em inglês.
De lá para cá, tem havido muita discussão sobre o significado dessa previsão teórica. Será que ela poderia sair do papel, permitindo a construção de uma máquina do tempo? E, se isso for possível, como evitar paradoxos? O certo é que, atualmente, ninguém sabe como construir uma máquina do tempo que nos leve para o passado.
O certo é que, atualmente, ninguém sabe como construir uma máquina do tempo que nos leve para o passado
Há quem ache que esse e outros mistérios do espaço-tempo só serão esclarecidos quando tivermos uma teoria que unifique os dois pilares da física contemporânea: a relatividade geral, que, como vimos, lida com os fenômenos do gigantesco e do ultraveloz, e a mecânica quântica, que trata do diminuto mundo das dimensões moleculares, atômicas e subatômicas.
Apesar dos esforços de milhares de cientistas, até agora, essa unificação, do macro com o micro, ainda não foi feita – um dos problemas é a dificuldade em realizar testes experimentais conclusivos. Apesar dessa dificuldade, nos últimos anos, a mecânica quântica tem esclarecido aspectos dessas possíveis viagens no tempo.
Você leu apenas o início do artigo publicado na CH 290. Clique no ícone a seguir para baixar a versão integral. PDF aberto (gif)

Ernesto F. GalvãoInstituto de Física
Universidade Federal Fluminense

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher!

Embora as datas em nossa sociedade, em sua maioria, tenham adquirido um fim consumista, o 08 de março precisa ser um momento cada vez mais de discussão e a continuação da luta pela igualdade entre os gêneros nos diferentes espaços sociais. 
Não podemos mais aceitar e conviver, ou mesmo reproduzir, as violências, explorações e humilhações que as mulheres sofreram e ainda sofrem em nossa sociedade ainda machista e preconceituosa. 
Que todos os dias possam ser o dia da mulher, que deve ser tratada com respeito e dignidade, independente de sua condição financeira, sexual, religiosa, política..... Mulheres, continuem a luta pelos seus direitos e sua dignidade frente à sociedade!








quarta-feira, 7 de março de 2012

Escravas e escravidão

Sinhás pretas
Por Sheila de Castro Faria
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Ana foi escrava de outra mulher, preta forra, ambas da Costa da Mina. Talvez como sua ex-senhora, talvez ensinada por ela, conseguiu se alforriar pagando pela liberdade com recursos de sua “própria indústria e trabalho”, conforme declarou em seu testamento, de 1798. Chamava-se Ana Teixeira Guimarães e tinha mais de 60 anos quando morreu, em Mariana, Minas Gerais.

A documentação relativa ao período escravista do Brasil permite pouca observação sobre a vida material e as escolhas dos escravos em seu cotidiano. Uma das formas de se vislumbrar alguns aspectos é por meio de inventáriose testamentos. Geralmente feitos por pessoas com recursos, os documentos eram ditados pelos doentes desenganados. Poucos meses depois do falecimento, realizavam-se os inventários, quase uma fotografia dos bens materiais dos proprietários no momento da morte. Tudo era descrito, até mesmo objetos sem valor.
O conjunto de dezenas desses inventários permite entrever padrões de certos grupos sociais, como o das pretas forras, mulheres que conseguiram libertar-se da escravidão e acumular bens.
Ana teve inventário porque possuía bens, e bens significativos. Era dona das casas de sobrado onde morava, em frente à Capela da Ordem Terceira de São Francisco, avaliadas em 310 mil réis, valor pelo qual poderia comprar pelo menos três jovens escravos recém-chegados da África. Tinha cinco escravos: quatro mulheres e um homem da nação Angola. Uma delas era Juliana, da Costa da Mina como ela, para quem deixou, divididos em quatro partes, 76.800 réis pelo tempo de seis anos a contar do dia de seu falecimento. Em seis anos, vivendo de seu próprio trabalho, Juliana tinha de completar o valor estipulado.
Ana deixou como herdeira de seus bens a “cria” de sua escrava Juliana, sua afilhada Francisca, de dois anos, liberta no batismo. Deixou de “esmola” a Juliana uma morada de casas cobertas de telhas.
Ser proprietária de casas e escravos era uma situação já bastante confortável para essas mulheres. Mas Ana possuía outros bens: braceletes, brincos, anéis, laços e botões de ouro adornados com pedras preciosas, como diamantes e topázios, e colheres e garfos de prata, num valor suficiente para a compra de dois escravos jovens: 197.200 réis.
Ser proprietária de casas e escravos era bastante confortável, mas Ana possuía também braceletes e botões de ouro adornados com diamantes e topázios
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Imagem: Fundação Biblioteca Nacional
Também era dona de outros bens requintados e restritos a poucos afortunados, de mercadorias importadas, provavelmente destinadas ao comércio, não sendo necessariamente para seu próprio uso. Uma delas era uma imagem em marfim de Santa Rita, objeto raro até mesmo entre os mais ricos da região. De seu inventário constam ainda fronhas e lençóis de linho, colchas e toalhas de algodão, saias de veludo carmesim e preto e de seda branca, muitas camisas de linho e de algodão, vestimentas de cambraia, de lemiste (tecido fino de lã inglês), chapéus elegantes, uma variedade incrível de lenços de diversos tecidos, pintados com flores ou aves na Ásia ou na Europa. Saias de veludo carmesim e preto não eram pouca coisa: o valor das duas saias somava 30 mil réis, um terço do preço de um escravo jovem.

Até os objetos feitos com materiais do Brasil eram dos melhores: sete catres – um tipo simples de cama –, dois espelhos, mesas grandes e pequenas de jacarandá, muitas com pés torneados, gavetas e fechaduras.
Mesmo sabendo que certas palavras da época não tinham o mesmo significado de hoje, algumas eram de difícil entendimento. Ana tinha três “pratos de pó de pedra”.  Segundo Luís Frederico Antunes, a louça europeia imitando padrões decorativos orientais era denominada de “louça de pó de pedra”. Mais interessante ainda era “prato de guardanapo da Índia”. Ana tinha oito deles. Esses pratos constam de vários inventários de mulheres forras de Mariana e figuram nas cargas de naus da Carreira da Índia.  Eram pratos finos, talvez de porcelana, usados nas refeições. Por serem trazidos em navios da Carreira das Índias, eram considerados como da Índia, embora feitos na China.
Mercadorias importadas da Ásia ou da Europa eram bens consumidos pelas elites. Mas, em meio a este grupo social, devem ser considerados outros estratos da população, como o formado por essas pretas forras, nascidas na África e transferidas para o Brasil em idade suficiente para terem adquirido a cultura de seus povos de origem. Podiam não ter prestígio social na sociedade escravista, mas tinham riqueza. Também compunham uma elite.
Suas escravas eram quase sempre mulheres nascidas na África. Em suas casas, era comum que só houvesse mulheres: as “sinhás pretas” viviam com suas escravas. A maioria não tinha filhos. Deixavam seus bens em herança para ex-escravas ou para as “crias”, ou crianças nascidas em suas casas, filhas de suas escravas.
Foram as mulheres, com suas redes de comércio, que dinamizaram a economia de regiões da África, e continuaram a fazer o mesmo nas Américas
Essas escolhas eram delas ou imposições da sociedade? Não tinham filhos porque foi impossível ou porque não quiseram? Eram proprietárias de mulheres em vez de homens porque eram mais baratas? Por que investiam seus recursos em joias, roupas caras e louças importadas? Cada vez tenho mais certeza de que eram escolhas próprias e pautadas por suas culturas de origem.
Em várias formações africanas havia uma rígida divisão sexual do trabalho. As mulheres eram responsáveis pelo preparo das comidas e pelo comércio de produtos agrícolas, de alimentos e das mais variadas mercadorias. Mulheres comerciantes predominavam nos mercados e feiras das aldeias e cidades em muitas regiões que tiveram contato com os europeus. A pimenta era um dos produtos mais procurados por eles na costa da África desde os primeiros tempos da expansão marítima, e eram as mulheres que monopolizavam seu comércio. Conclusão: ficaram ricas. Com o tempo, incorporaram novos produtos, provenientes de outras praças mercantis.
Interceptavam comerciantes, a fim de comprar barato e revender com lucro suas mercadorias; participavam do comércio de longa distância, inclusive por meio de procuradores, e intermediavam os produtos do tráfico de escravos português, como a cachaça, o tabaco e os panos das Índias. Um exemplo foi Madame Tinubu, que atuou em Badagry e Lagos, no golfo de Benim, na segunda metade do século XIX, onde negociava sal e tabaco, e era intermediária dos comerciantes de escravos do Brasil. Juntou grande fortuna, era dona de muitos escravos e ficou conhecida por seus opositores como “o terror de Lagos”.
Nem sempre tão poderosas como Tinubu, mas com redes comerciais importantes, foram as mulheres que dinamizaram a economia de muitas regiões da África e continuaram a fazer a mesma coisa nas Américas.
Explica-se a escolha de escravas, e não de escravos, por parte das pretas forras no Brasil: as cativas atuariam no comércio ao lado ou a mando delas. Não tinham filhos porque não queriam procriar na diáspora. Ana, como muitas outras, deixou herança para uma afilhada, Francisca, e uma casa para a mãe da menina, certamente para que cuidasse dela e lhe transmitisse ensinamentos. Juliana provavelmente se transformaria em uma nova Ana ao usufruir os recursos. Ana tinha entre seus bens trempes e fogareiros, tachos e apetrechos de cozinha, utilizados na preparação e na venda de alimentos. A quantidade de catres sugere que sua casa pode ter sido uma hospedaria, incluindo o fornecimento de comida.
A entrada de novas mercadorias nesse comércio não assustava as comerciantes: incorporavam as novidades às suas transações. Os objetos nos quais decidiram investir seus recursos eram luxuosos no Brasil: joias, tecidos e louças importados do Oriente. Eram parte de um comércio de longuíssima distância. Uma delas entregou tecidos a um comerciante para que lhe trouxesse uma escrava da África.
São impressionantes a capacidade de adaptação e o desempenho de mulheres como Ana Teixeira de Guimarães. Chegaram ao Brasil à força, nas condições mais adversas e no pior lugar social possível. Essas “Anas” conseguiram resultados que fariam inveja à maioria dos homens que nunca foram escravos, que se mudaram para a América por iniciativa própria, em busca de enriquecimento, e tiveram as expectativas frustradas.
   
Sheila de Castro Faria é professora da Universidade Federal Fluminense e autora do artigo “Francisca Maria Teresa e as Sinhás Pretas no Brasil colonial”. In VAINFAS, Ronaldo; SANTOS, Georgina Silva dos; NEVES, Guilherme Pereira das (orgs.).Retratos do Império. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Niterói: Ed. UFF, 2006.